Em busca da liberdade

Maciel de Aguiar

EM BUSCA DA LIBERDADE

 

                Para Salvador Allende

 

O filho com os olhos úmidos

diz à mãe em prantos:

Vou-me embora para o Chile;

  de lá, posso dizer que estou vivo,

  que nada me atormenta.

  Não acordarei com os fantasmas,

  não enfrentarei meu carrasco...

Um profundo vazio abre-se

entre a criação

e a criatura.

Vêm à mente as lembranças

da infância distante,

tão criança,

tão menino,

com os pezinhos descalços

a iniciar-se na vida.

A mãe implora ao filho

que se esvai pelos vãos dos dedos:

Não se vá,

  meu menino,

  não se vá...

A lua de prata derrama

raios difusos sobre os corpos

e os meninos que adormecem nas sarjetas

em estado de consternação

escondem-se dos assassinos.

O filho insiste diante da despedida:

Não queira carregar nos braços

  o meu cadáver sem direito à sepultura.

  Não queira procurar-me nos necrotérios

  com o crânio afundado por torniquete,

  as pernas quebradas a pauladas,

  as unhas arrancadas por alicate,

  os testículos pisoteados por coturnos.

  Não queira procurar-me na Lista dos Mortos...

Mas a mãe,

guardiã de tudo,

resiste,

piedosa

e impassível:

Não deixe aqui o meu cadáver

  esperando por suas cartas

  que nunca irão chegar,

  que nunca serão entregues...

O filho sabe que o amanhã

renascerá das cinzas do hoje

como uma porta aberta,

enquanto o sol haverá de queimar

a alma dos pássaros emigrantes

e nunca mais lançará a face dos mortos

contra os cornos do demônio.

A mãe inconsolada deixa escorrer

lágrimas de desespero,

escondendo-se pelos cantos

para que ninguém perceba a desgraça,

sombra que se perpetua

sobre um mar de incompreensão.

O filho, enfim,

coloca os pés na estrada,

desfiladeiros,

labirintos,

sepulcros,

que se abrem assim que ele passa

com os pés inconfidentes.

Olhos bailarinos dançam

embalados pela música do desterro;

cavalos alados sobrevoam os céus

com os cascos cintilantes

e as bocas dos vencidos remoem

palavras indecifráveis;

vaga-lumes lampejam os corpos faiscantes

iluminando o caminho rumo às cordilheiras.

Vou-me embora para o Chile...

Vou-me embora para o Chile...

Vou-me embora para o Chile...

Vai o exilado voluntário

repetindo mil vezes

diante da vontade de ficar,

enquanto os espelhos refletem

a provação dos que se foram

tragados pela impossibilidade.

As mães soluçam

debruçadas na dor

olhando a rua sem fim,

caminho que leva os sediciosos

em busca da Liberdade...

Não se vá,

  não se vá,

  não se vá...

Pensamento uníssono

que forma uma constelação,

guiando os passos infantes

pelas trevas de hoje.

Na Pátria alheia à tragédia,

os ferreiros forjam algemas

e grades de ferro

para emoldurar o horizonte;

cães assassinos lambem

os olhos lacrimosos

e farejam os rumos

dos pés dos que partem trôpegos;

guerreiros com armas de papelão

abrem com golpes os caminhos

rumo às cordilheiras dos Andes,

que deságuam rios de esperança

por onde navegam os barcos perdidos.

Na Pátria ainda imóvel,

as cabeças dos que ficam são oferecidas,

banquete das carnes

à festa dos que exibem

as ossadas brancas dos mortos

à luz do sol da manhã.

As mães, inconsoláveis e tristes,

ainda falam com os filhos:

Vê, meu menino,

  quanta desgraça terás

  que enfrentar pela frente

  até encontrares o reino

  da Liberdade sonhada...

Milhares de filhos respondem

na densidade da floresta,

fugindo dos cães insanos,

correndo das balas assassinas:

Chegaremos a salvo,

  chegaremos um dia,

  chegaremos,

  com certeza...

Os que conseguem chegar

mandam pelos ventos das palavras

as cartas sem remetente:

Aqui viveremos,

  nossas mães...

  Saudades,

  saudades,

  saudades

  dos infantes que partiram

  e do Brasil que ficou em nós...

Os meninos derramam feito cordilheiras

os veios de esperança

pelo seio da terra.

São lágrimas da Liberdade...

 

 

                      Rio de Janeiro, 3.4.72

 

 

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