Os gritos da Rua Tutóia

Maciel de Aguiar

OS GRITOS DA RUA TUTÓIA

 

          À memória de Pauline Philippe Reichstul, 

          assassinada pela ditadura.


A Rua Tutóia grita
nos ouvidos das pessoas 

que passam despercebidas 

deste tempo abafado
dentro da alma em pânico, 

nos olhos em aflição
dos que ouvem pelas calçadas
a voz dos que emprestam os nomes 

à Lista dos Procurados.
A Rua Tutóia grita
aos que nunca procuraram os filhos 

com uma fotografia na mão, 

parando em cada esquina, 

indagando a cada pessoa 

pelo destino do seu menino 

que saiu à escola
e não mandou notícias,
nem ao menos um recado,
nem uma carta com o nome,
nem um endereço no remetente. 

A Rua Tutóia grita
aos que pensam que estão a salvo,
que nada lhes acontecerá:
os que dão de ombros,

os que tapam os ouvidos, 

os que deixam transparecer 

a satisfação nos lábios,
os que não protegem os corpos 

contra as balas assassinas,
os que conseguem escrever versos
omissos distante do seu tempo.
mostrando a alma distante,
surdos-mudos-cegos,
que fazem de conta
que vivem em liberdade. 

A Rua Tutóia grita
ao céu frente um manto
de chumbo sobre os telhados
encardidos da Paulicéia,
nas vidraças das esquinas,
nos postes de antanho,
sobre a copa das árvores,
frente à garoa fina
que adormece os que se escondem,
longe dos pára-brisas
dos carros enfileirados
que passam sempre apressados,
dentro dos camburões
que chegam a toda hora
com gentes para averiguação.
A Rua Tutóia grita
com a boca dos miseráveis
que perderam o direito à vida:
os que encontraram com os seus fantasmas 

nas noites longas das trevas,
os que foram possuídos
pela desonra extrema,
os que quase não conseguem andar
e se arrastam pelos chãos,
os que o padecimento eterno
tomou conta da alma,
os que mostram as chagas
abertas aos algozes,
os que o suplício corroeu

as unhas 

e as entranhas

e ainda encontram forças 

a resistir por mais um dia. 

A Rua Tutóia grita
dentro do peito dos carrascos, 

eco ressoando prazer
diante dos infelizes
alquebrados estendidos
com as mãos atadas às costas 

e os pés em marcas ao chão,

corpos ao ar dependurados 

em suplício assustador
a arrancar-lhes confissões 

que delatam os amigos
escondidos nos aparelhos 

e que logo cairão
nas mãos dos assassinos:
os que pensam que sozinhos 

vão remover os escombros 

sobre a Liberdade soterrada,
sobre a vida das pessoas,
sobre a lembrança dos ancestrais. 

A Rua Tutóia grita
a todos os ouvidos.
A Rua Tutóia grita
em desespero ao mundo.
E poucos escutam a sua voz…  

 

 

                     São Paulo, 17.3.74

 

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados