MARIA LUCIA, JOVEM COMO NÓS
A.
maria lúcia
lúcida —
jovem como nós.
teus vinte
tão verdes anos
tombados (sem flor)
em maio
terão sido por nada,
maria ?
e o sumo das tardes róseas
e as florações da alegria
e a vontade de cantar,
maria ?
B.
ah, maria
mas tu bem soubestes
que é proibido cantar
e tardes
flores
cantigas
são matéria de muita busca
a busca de muito lutar
tu que sentiste o teu povo
tu bem soubeste
da nossa agreste
colheita
feita
de sabre e espinhos
C.
para dizer-te de amor
precisaríamos
talvez
de chorar
banhar de sal
este chão de guerra
mas o pranto
apenas nos traria
o amargo consolo
dos vencidos
e o pranto
não faz sentido
D.
então, maria
este poema é
somente para te dizer
que o teu sangue circula
também em nós
(somos jovens)
e aquece os nossos motivos
e levanta os nossos braços
para a luta
E.
haveremos de cortar
as asas do pesadelo
e um dia os feitores
do medo
ao povo
— enfim soberano —
hão de saldar estas dores
e estes grilhões de silêncio
esses que urdem sua fúria
contra a nossa mocidade
esses serão
a escória
dos tempos que hão de vir
mas tu que jazes na terra
por ter buscado a alegria,
reviverás noutras guerras
— as guerras dentro de nós
que nos impelem para a frente
e dão força à nossa voz
F.
e porque é de todos esta briga
ela se abriga
na ação e no coração
de nossa gente inteira
não: tua morte
não foi vã
maria lúcia, lúcida estrela
nossa amiga e
guerrilheira —
nossa irmã
Comentário do pesquisador
De acordo com a apresentação da obra, assinada por um grupo de familiares dos mortos do Araguaia: "Estas poesias foram feitas provavelmente pelos guerrilheiros do Araguaia. Sua primeira publicação parcial se deu em 1979 no Jornal "Resistência", do Pará. [...] Quem as lê percebe que, de fato, foram feitas por pessoas muito íntimas da guerrilha. O prefácio original - "Cantar é preciso", escrito todo no plural, contradiz a assinatura de um único autor no final do mesmo. Libério de Campos pode ser, inclusive, uma alusão dos autores aos objetivos de sua luta - "Liberdade-Camponoses". O poema é provavelmente dedicado à militante do PCdob Maria Lúcia Petit da Silva, desaparecida do Araguaia.