Lição de rebeldia

Maciel de Aguiar

LIÇÃO DE REBELDIA

 

   À memória do professor Aldemar Neves, 

   que ministrou aulas de Liberdade

   diante da impossibilidade da vida.

 

 

O professor atrás dos óculos 

dizia em tom áspero
aos alunos contritos: 

— A lei existe para tudo… 

A lei existe para todos… 

A lei existe para ser cumprida…

Lei da moral
e dos bons costumes;
lei da autoridade vil
e dos atos numéricos;
lei da gravidade dos corpos
e da Ordem do Dia;
lei do Toque de Recolher
e do Estado de Guerra;
lei do Estado de sítio
e do Estado de exceção;
lei do mais forte
e do chicote;
lei da cabeça dos homens
e da boca do cão;
lei complacente aos amigos
e severa aos estranhos;
lei da toga dos juízes
e dos códigos de postura;
enquanto lá fora os soldados
lustravam os cassetetes,
à vigília da vida.
Os alunos aprendiam as normas
impostas aos anos
sem terem o direito de escolher

o caminho do itinerário.
O professor deixava no quadro

lições de matemática,

tão precisas,
tão corretas,
tão justas,
que espalhavam melancolia
por todos os cantos da sala,
cada um com a mesma soma,
cada qual com o mesmo problema, 

cada aluno com os mesmos números, 

sem ao menos um milímetro
ao resultado final.
O professor, em seu jaleco de giz, 

andava em círculos insuspeitos:
as mesmas linhas cotidianas,
as mesmas figuras geométricas,
os mesmos problemas concretos, 

as mesmas relações pessoais, 

os mesmos gestos repetidos. 

A sala quieta aprendia 

o raciocínio inútil,
até que tocava a campainha
anunciando o fim da aula.
O professor pendurava
atrás da porta a imagem
circunspecta e distribuía
folhetins de desobediência,
poemas panfletários impressos 

em mimeógrafos clandestinos, 

cartilhas da Guerrilha
da Serra do Caparaó,
mapas do Araguaia,
fotografias do Ribeira
e do ‘Chê’ feito um Cristo
ao chão recrucificado,
diante dos olhos em brasa
daquelas almas sedentas
de resposta para tudo.
O professor, já sem os óculos, 

mandava fechar as janelas. 

Agora, ensinava o inverso

das lições oficiais: 

— Joguem fora as leis,

  joguem fora as Ordens,

  joguem fora os Atos.
  que a vida não é resultado 

  de uma matemática aplicada… 

Os alunos aprendiam 

finalmente a resposta 

procurada pelos anos. 

Abraçavam-se aos ventos 

da insubordinação pura: 

cada um com uma bandeira 

desfraldada na própria pele, 

cada qual com uma verve 

que recebera do destino, 

cada vida exigindo 

o espaço de rebeldia.
O professor que semeava 

lições retilíneas em tom áspero 

agora distribuía ensinamentos 

entremeados de desobediência… 

Até que, um dia, a campainha 

foi ouvida pela derradeira vez:

— Foi levado para onde?

Foi encontrado boiando?

Emprestou o nome à Lista?

Todos indagavam assustados 

pelos cantos da classe,
pelo pátio do colégio,
frente o quadro das proibições
do que nunca deveríamos aprender. 

O mundo, com uma borracha,
por certo apagará
da memória dos mortais
as lições subversivas
do professor que seguiu

o destino dos que não se curvam 

em pedidos de indulgência.
Uns alunos que aprenderam
os ensinamentos da desobediência 

fecharam os cadernos

e ainda murmuram pelos cantos

nos exílios,
nas prisões,
nos escombros,
nos quartos de pensão.
nas ruas sem documentos, 

nas vidas clandestinas,
nos caminhos percorridos 

na esperança de recomeçar

sonho dos rebelados
até o dia do esquecimento. 

O professor que ensinava 

ciências exatas entremeadas 

de rebeldia
e coragem,
de geração em geração,
deixou uma lição
de Liberdade tatuada
na alma de todos nós
que o vimos de se pegar
e dizer:

— As leis existem para todos.

  Nós existimos para descumpri-las!…

 

 

                     Rio de Janeiro. 10.9.74

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