Exilado numa tristeza além desta literatura.
Escrever, para quê? e por que não
se a teimosia de viver não encontra
outra saída e nem outro chão?
Exilado nos exílios dos poetas
dos estudantes
dos cientistas
dos artistas
dos jornalistas
dos políticos
Exilado na anistia que não chega
Exilado na censura, ou pior ainda
na autocensura em que se poda
a vida na mão que escreve
Exilado na poesia aguada pelos medos
de aparecer com a viva cor do sangue
Exilado no eruditismo que ignora
ser a fala uma expressão de amor
mais partícipe na criação da vida
do que a arte longe do povo
ou sem raízes
no coração daquele que a faz
Exilado nas teclas da máquina
empoeirada
Exilado em cinqüenta anos de vida
entre duas guerras no mundo
e duas ditaduras aqui
Exilado no silêncio que é melhor
que os fingimentos de falar
Exilado nas notícias que recebo
Exilado nas notícias que não recebo
Exilado entre as notícias
que entre as notícias leio
Exilado exatamente, tão exatamente
que não vejo mais a diferença
entre as duas linhas paralelas
do que era a vida e do que é a morte
Comentário do pesquisador
Esse trecho pertence ao longuíssimo poema de 88 páginas, publicado em 1977, intitulado "Canção do exílio aqui ou Alguns elementos para o inventário de uma geração nesta cidade do Rio de Janeiro". O texto se ergue a partir de uma construção paralelística em que todos os versos se iniciam com as mesmas palavras "Exilado no/a", que indicam a condição de estranhamento e deslocamento do poeta frente ao seu tempo. Como apontado por Alceu Amoroso Lima (1977), no prefácio do próprio livro que abriga o poema, não se trata de um exílio espacial, mas de um exílio no próprio tempo e nas instituições sociais dominantes. O trecho destacado acima se encontra na seção "Abertura", do livro-poema. Cabe lembrar que a obra inteira tematiza a vida, o cotidiano e a história durante o período da ditadura militar, fazendo referência direta a inúmeros acontecimentos e figuras da época. Por conta da extensão do poema, que inviabilizaria a sua publicação na íntegra, foram selecionados apenas alguns trechos para compor o Memorial Poético dos Anos de Chumbo.