Aos camaradas e amigos, companheiros e companheiras, mortos e desaparecidos
Onde ficou o Rio de Janeiro
Que Chico e Noel cantaram.
Não posso esquecer de centenas
Que cantaram, amaram, sonharam,
Olhando para o instante das últimas despedidas,
Do último adeus.
Como poderás inventar uma paz
Que concorda sem se lembrar.
Onde encontrarás a memória perdida, Entre o susto e um pobre começar,
Para encontrar risada, sofrendo,
Mirando, tão terrível, o último adeus.
Querida, o céu não pode ajudar
Para apagar o mal da verdade,
E, embora minha terra esteja longe,
Sua dor me bate num tom marcial
E ocorre-me pensar que eu não posso chorar.
Porque chorar só leva a lamentar
E à calma nostalgia por aqueles que não são, nem estão.
E com o tempo a memória torna tudo morto
E, então, você vai perguntar:
Onde estão os culpados letais,
Olhando para o fantasma do último adeus.
Quero juntar minha canção ao seu canto,
Em uma história que ainda está por vir,
Onde aquele choro cubra-se
Com seu manto de ferro e, em seguida, lembre-se
Daqueles que amaram, cantaram, sonharam,
Tendo vergonha de assistir o fantasma do último adeus.
Ai Brasil, salva a minha a fé
Que canta com tua terra e sua voz.
Eu não posso ajudar, mas me levantar
Para o meu tempo,
Com sua música, com o meu amor,
Com a esperança, a força, a resistência,
Que vivo em ti.
E se outro tempo, sedento de ódio,
Outra vez, volta a invadir o amor,
Eu, que amo a retomada, anuncio:
Nunca te esqueças de que existe no Caribe,
E espero que você encontre,
Um verde, uma justiça, a esperar
Aqueles que amaram, cantara, sonharam,
Olhando para a beleza das últimas despedidas.
Juliano Siqueira, 1973
Comentário do pesquisador
Juliano Siqueira representa um exemplo vivo da resistência estudantil e militante contra a repressão da ditadura no Nordeste. Sua trajetória — como estudante, militante clandestino, preso político, torturado, depois anistiado e reinserido na sociedade — espelha a sorte de muitos jovens da época. Ao retornar aos estudos, atuar como professor, político e produtor de memória, ele ajuda a preservar e revelar o que foi a repressão no Brasil, especialmente fora dos grandes centros (RJ/SP), onde narrativas costumam se concentrar.