As horas do silêncio

Maciel de Aguiar

AS HORAS DO SILÊNCIO

 

 

Os relógios batem
as pancadas do desespero, 

e os ouvidos, ao longe, 

ouvem atônitos
as mesmas horas do suplício, 

os mesmos minutos de angústia 

nos dias que se repetem 

sempre com a mesma pontualidade. 

Os relógios anunciam
a hora da palmatória
e da cadeira do dragão,

a hora do pau-de-arara
e de enfiar o cassetete no ânus,
a hora do alfinete no sabugo
e de lamber os excrementos,
a hora do telefone
e do chute nos testículos,
a hora de cheirar fumaça de óleo diesel 

e de apagar o cigarro na pálpebra, 

a hora da toalha molhada sobre o dorso 

e da porrada nas entranhas.
Tudo em momentos
de sofrimento esperado, 

sem prever qual a parte
será usada ao suplício.
Nas horas cheias
das longas noites de pavor, 

os corpos indefesos esperam 

pelos castigos infames,
sem saber ao certo 

o quanto vão pagar
pelo crime da consciência,

o crime de amar a Pátria
acima de si mesmos,

o crime que nunca foi cometido 

além da cidadania procurada.

Os corpos que enfrentam os fantasmas 

esperam pela desgraça,
que vem sempre na mesma hora
com a invariável pontualidade,
como um receituário seguido à risca 

pelos que ministram as doses 

contra os males invisíveis 

das criaturas que chegam
ao ponto mais vertical 

da desonra extrema.
Não há pedido de socorro, 

não há extrema-unção,
não há piedade,
não há contra-ordem. 

São todos muito perfeccionistas,
cumprindo as determinações do demo. 

Nenhum erro de cálculo,
nenhuma hora em brancas nuvens, 

nenhum atraso na condução, 

nada é capaz de mudar
aquela pontualidade vil
que vem com as inquietações 

que fazem os ponteiros dos relógios 

anunciar a dor dos vencidos.
Penso que melhor seria
se não tivéssemos os minutos, 

se não existissem as horas, 

se não houvessem os dias 

da espera angustiante
para o castigo perene. 

Penso, até mesmo,
que melhor seria 

atentar contra a vida;
mas os corpos em aflição 

estão à espera dos algozes,

dezenas de homens encapuzados.

As mãos prontas ao ato,
o ódio pronto a fartar-se
daquelas vidas jogadas
às feras, 

aos porcos,
aos assassinos.
As horas do silêncio vêm
infalivelmente com os instrumentos 

de suplício nas mãos dos infames: 

uma,
duas,
três,
quatro,
cinco, 

seis, 

sete, 

oito, 

nove,
dez,
onze,
doze
vezes ininterruptas
a atordoar as vidas.
As horas do silêncio transformam 

em pancadas de dor
os ouvidos dos vencidos,
que esperam com os débeis corpos 

pela saga dos vencedores.
Penso que melhor seria
não existir neste tempo… 

 


                      Rio de Janeiro, 9.12.73

 

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados