AS HORAS DO SILÊNCIO
Os relógios batem
as pancadas do desespero,
e os ouvidos, ao longe,
ouvem atônitos
as mesmas horas do suplício,
os mesmos minutos de angústia
nos dias que se repetem
sempre com a mesma pontualidade.
Os relógios anunciam
a hora da palmatória
e da cadeira do dragão,
a hora do pau-de-arara
e de enfiar o cassetete no ânus,
a hora do alfinete no sabugo
e de lamber os excrementos,
a hora do telefone
e do chute nos testículos,
a hora de cheirar fumaça de óleo diesel
e de apagar o cigarro na pálpebra,
a hora da toalha molhada sobre o dorso
e da porrada nas entranhas.
Tudo em momentos
de sofrimento esperado,
sem prever qual a parte
será usada ao suplício.
Nas horas cheias
das longas noites de pavor,
os corpos indefesos esperam
pelos castigos infames,
sem saber ao certo
o quanto vão pagar
pelo crime da consciência,
o crime de amar a Pátria
acima de si mesmos,
o crime que nunca foi cometido
além da cidadania procurada.
Os corpos que enfrentam os fantasmas
esperam pela desgraça,
que vem sempre na mesma hora
com a invariável pontualidade,
como um receituário seguido à risca
pelos que ministram as doses
contra os males invisíveis
das criaturas que chegam
ao ponto mais vertical
da desonra extrema.
Não há pedido de socorro,
não há extrema-unção,
não há piedade,
não há contra-ordem.
São todos muito perfeccionistas,
cumprindo as determinações do demo.
Nenhum erro de cálculo,
nenhuma hora em brancas nuvens,
nenhum atraso na condução,
nada é capaz de mudar
aquela pontualidade vil
que vem com as inquietações
que fazem os ponteiros dos relógios
anunciar a dor dos vencidos.
Penso que melhor seria
se não tivéssemos os minutos,
se não existissem as horas,
se não houvessem os dias
da espera angustiante
para o castigo perene.
Penso, até mesmo,
que melhor seria
atentar contra a vida;
mas os corpos em aflição
estão à espera dos algozes,
dezenas de homens encapuzados.
As mãos prontas ao ato,
o ódio pronto a fartar-se
daquelas vidas jogadas
às feras,
aos porcos,
aos assassinos.
As horas do silêncio vêm
infalivelmente com os instrumentos
de suplício nas mãos dos infames:
uma,
duas,
três,
quatro,
cinco,
seis,
sete,
oito,
nove,
dez,
onze,
doze
vezes ininterruptas
a atordoar as vidas.
As horas do silêncio transformam
em pancadas de dor
os ouvidos dos vencidos,
que esperam com os débeis corpos
pela saga dos vencedores.
Penso que melhor seria
não existir neste tempo…
Rio de Janeiro, 9.12.73