POEMA PARA HELENIRA
1.
uma mulher
se tece em
cardos
cordas
c-ordeiras aspirações.
assim é
assim quer
o dono de noite
mas
uma mulher é
capaz
de paz
e de guerга
uma mulher
2.
uma mulher
desfaz-se de
cordas
e
coisas
mais graves
e se faz em ave
e voa e vai e voa
acima
de si
— para o sol
e livre
leve
livre,
isenta dos nossos
vossos
estreitos compr-omissos
ela fere a noite
pois prefere o sol
O SOL
eis o que ela mira
HELENIRA
3.
ave, helenira
os que vão lutar te saúdam!
o povo, o teu povo te saúda
e inscreve no peito
em secreta caligrafia
o teu nome
que é VIVO
e SEMPRE
ave, mulher — helenira e ira —
porque
além da morte
estás viva
e cantas dentro de nós
muito mais forte que nós
o teu brado de
vida :
esta fome de luz
esta certeza
este gosto de fogo
que nos equilibra
4.
hoje
( por enquanto )
— noites ásperas
duro silêncio —
podemos apenas
o canto tímido
de teu nome
amanhã
porém
rosas vermelhas
germinarão de teu sangue
e num dia de sol e vidro
cantaremos
aos quatro ventos
tua canção de justiça
Comentário do pesquisador
De acordo com a apresentação da obra, assinada por um grupo de familiares dos mortos do Araguaia: "Estas poesias foram feitas provavelmente pelos guerrilheiros do Araguaia. Sua primeira publicação parcial se deu em 1979 no Jornal "Resistência", do Pará. [...] Quem as lê percebe que, de fato, foram feitas por pessoas muito íntimas da guerrilha. O prefácio original - "Cantar é preciso", escrito todo no plural, contradiz a assinatura de um único autor no final do mesmo. Libério de Campos pode ser, inclusive, uma alusão dos autores aos objetivos de sua luta - "Liberdade-Camponeses". Este poema é provavelmente dedicado a Helenira Resende, militante do PCdoB, guerrilheira no Araguaia e desaparecida política.