A camisa manchada

Maciel de Aguiar

A CAMISA MANCHADA

 

 

               À memória de José Guimarães.

 


Aquela camisa manchada,

pendurada no varal,
à luz do sol escaldante,

na tentativa vã
de secar o que foi lavado, 

esfregado com sabão, 

levado ao fogo na fervura 

e que ainda mantém intacta 

a mancha de sangue velho, 

foi levada em passeata, 

cobriu o peito do menino 

traspassado aos céus de chumbo, 

e mostrou a dor infame
aos que passavam sem saber 

do ocorrido neste tempo 

de horror
e iniqüidade.
A camisa que estava 

escondida no sótão, 

numa eternidade de dor, 

em que vivemos em fuga 

dos atrozes assassinos, 

foi exibida como prova 

daquele crime praticado 

diante dos olhos de todos. 

Um corpo ainda infante, 

levado nos braços da mãe, 

esvaindo-se em sangue 

para não deixar vestígio,
nem nome,
nem data,
nem cruz.
Agora, aquela camisa,
com mancha de sangue seco, 

é lavada todos os dias 

com sabão
e soda cáustica,
limão
e ácido sulfúrico,
levada ao sol sob guarda 

armada até os dentes, 

na tentativa de aniquilar 

o que ficou como prova 

daquele crime cometido 

contra o corpo em dorso nu, 

levado pelos amigos
pelas ruas,
pelas praças,
denunciando os assassinos. 

O general manda vir
todos os lacaios que lustram 

as fardas da oficialidade, 

as roupas rasas dos soldados, 

os corredores da caserna,

as salas,
as latrinas,
na tentativa de limpar 

aquela mancha indesejável 

que a todos incomoda.
Mas, de nada adianta
todas as mãos se esmerarem
no ofício de apagar 

a sujeira do regime…
Esfolam os dedos,
corroem as unhas,
formando unheiros
e feridas,
mas a mancha de sangue velho
continua na camisa,
indiferente a todas
as tentativas fracassadas 

de levar ao esquecimento 

aquele dia de dor. 

A mãe, ainda em prantos, 

guardava aquela lembrança 

com todo o zelo do mundo. 

Agora, chora pelos cantos, 

lembrando do seu menino, 

quando o tomou pelos braços 

gritando com todas as forças 

que lhe navegavam as veias: 

— Assassinos, assassinos! 

Poderia ser seu filho!…

Poderia ser um de nós!…

A mancha ao sol
na camisa já desbotada,
guardada pelos anos,
balança ao vento como uma bandeira 

desfraldada aos céus da Pátria,
denunciando a tirania,
denunciando a infâmia,
denunciando a dor.
E com a mãe ficou a memória
da recordação sofrida
da camisa tremulando
frente os olhos dos assassinos.
Impossível lavar a nódoa
deste nosso tempo de hoje… 

 


                     Rio de Janeiro, 21.10.74

 

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