A MORTE DE OSVALDÃO
Para Orlando Osvaldo da Costa,
desaparecido no Araguaia.
— Osvaldão tombou,
tombou,
tombou,
tombou...
A notícia, como um cataclismo,
inundou a terra
que deixava escorrer
por entre raízes,
encravadas aos chãos,
os rios rubros de sangue,
dilúvio de dor
e assombro
que faz calar os animais
que ainda fogem assustados.
— Osvaldão morreu,
morreu,
morreu,
morreu...
A tragédia assinalada
como ato de rebeldia
inundou o Araguaia,
despertando os fantasmas
que ainda dormiam,
estremecendo as árvores
de séculos de existência,
afugentando o gentio
para mais longe ainda
da guerra do fim do mundo.
— Osvaldão caiu,
caiu,
caiu,
caiu....
A cidade grande não sabe
da guerrilha que naufraga
no coração do País.
Só a notícia nos jornais
com a versão do vencedor
anuncia mais uma vitória
do poder blindado
contra as armas de papelão.
— Quem matou Osvaldão?
— Quem teve tamanha coragem?
— Quem matou,
quem matou,
quem matou,
quem matou?
Pergunta sem resposta
que invade os ouvidos,
aliviando as noites
dos soldados assustados
que já podem dormir,
pois ninguém mais irá
atormentar o sono
nem aterrorizar as horas
vividas sob o domínio
do medo de enfrentar
aquele guerreiro de ébano.
— Mas quem teve tamanha coragem
de fazer tombar o gigante
de osso de marfim
e alma de porcelana?,
indagam pelas esquinas
os que pensam
que continuam vivos.
— Foi o Exército com mil tiranos?
— Foi o Batalhão com mil soldados?
— Foi o Regimento com mil cavalos?
As bocas mudas perguntam-se
pelos cantos assustadas,
procurando explicação
à notícia avassaladora
que inundou o Araguaia.
— Foi um jagunço?
— Foi um pistoleiro?
— Foi uma emboscada?
Ninguém acredita que haveria
na face da terra um homem
a fazer tombar Osvaldão,
enquanto um rio de sangue
ainda escorre pela selva.
— Que balaço foi esse balaço?
— Que tiro dilacerante foi esse tiro
que fez cair o gigante
temido pelos soldados,
amigo dos ribeirinhos
do rio que virou lágrimas
escorrendo pelas faces
descarnadas que habitam
o interior do País?
Falam-se todos nos ouvidos
abalados com a tragédia:
— Osvaldão tombou,
tombou,
tombou,
tombou...
A notícia ecoou pelo mundo,
inundou os olhos incrédulos,
encheu as noites de mistérios,
subiu as sierras distantes,
ganhou os ouvidos dos milhares
de guerreiros infantes das cidades,
entrou pelas veias dos poetas
que cantam a dor dos vencidos.
— Que guerra é essa, que guerra,
que ninguém sabe
ninguém ouve,
ninguém vê?,
indaga um transeunte
em terno de casimira,
correndo os olhos vorazes
na notícia do jornal.
— Quantos mortos,
quantos tiros,
quantos rios de sangue
desaguam no Araguaia,
que transforma em necrotério
o coração do Brasil?
A notícia fatídica
pegou a todos desprevenidos:
— Osvaldão morreu,
morreu,
morreu,
morreu...
A dor feito bofetada de trovão
atingiu em cheio o peito
dos que procuram encontrar
a Liberdade escondida.
Osvaldão, a esta hora,
repousa no reino da paz
com sua enorme bondade;
encontrou-se com a eternidade…
Osvaldão viverá em nós
como uma lenda sem fim...
Rio de Janeiro, 23.10.73