VENCEDOR
Amo a todos que vejo
e a todos quero comer
Tirar minha roupa desbotada
e enfadonha.
Tirar as calças
amareladas pelo tempo.
Abrir meus braços
estalados no desuso.
E os meus seios
magricelos pela fome.
No meu ventre
como ilha de meus ossos.
Nas minhas coxas
tão carnudas como o fêmur.
De meus joelhos
espetados como pontas.
Lá nos meus pés
de tamanho 34.
Ver tudo largo
como índia numa rede.
Ver tudo solto
como folhas no outono.
E muito quente
como água de um parto.
Abrir os braços
Abraçar a humanidade.
Abrir a boca.
Beijar todos de uma vez.
Virar as costas
e sangrar meus calcanhares.
Sentir o cheiro
que emanam as pessoas.
Que venham todas as crianças
e mulheres
todos os homens
as raças diferentes
todos os pobres
carentes e doentes.
Menos os credos pois deles desconfio.
E os fanáticos pois deles tenho medo.
Menos aqueles que sabemos nocivos.
Todos os outros que não quiserem vir.
Foi com esses treze dias de greve de fome
que descobri esta forma de amar.
Da fraqueza, do soro, da língua seca,
dos vômitos,
eu vou esquecer.
Mas este amor
eu vou curtir e usar.
Maria Cristina Ferreira de Oliveira
Hospital Penitenciário
12/5/78
Comentário do pesquisador
O poema está datado no dia 12/05/1978 e sinalizado como local o Hospital Penitenciário. Ele faz referência à Greve de Fome, que foi um movimento nacional de resistência dos presos políticos na década de 70.