muitos são os silêncios
poucos serão ouvidos
o silêncio de Buda
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
na vida diária
o silêncio de Pitágoras
para Pitágoras
tudo é número
tudo é harmonia
tudo é música
os astros obedecem a uma matemática
essa matemática é uma música
não ouvimos a música das estrelas
porque nossos ouvidos são impuros
a culminância da experiência pitagórica
de purificação
a ascensão de espírito
era ouvir nas noites estreladas
a sinfonia vinda das esferas
o silêncios dos astros
nasce da nossa surdes
o silêncio de pascal
“o silêncio desses espaços infinitos
me apavora”
os pensamentos estraçalhados de pascal
são a crise de uma consciência expepcional
no limiar de uma nova era
o místico pascal
contempla o céu estrelado
numa vão espera de vozes
o céu calou-se
estamos sós no Infinito
deus nos abandonou
“daquela estrela à outra
a noite se encarcera
em turbinosa vazia desmesura
daquela solidão de estrela
àquela solidão de estrela” (leopard/ via h
campos)
nenhum ufo
no close contact of the third kind
a solidão “cosmic” de pascal
é o pendant do vazio de sua classe social
cuja hegemonia está para terminar
os germes da revolução francesa
que vai derrubar a nobreza
e colocar a burguesia no poder
já estão no ar
pascal ouve nos céus
o tremendo silêncio
de uma classe que já disse
tudo que tinha que dizer
pela boca da história
o silencia de Hermes
é o silêncio hermético
o silêncio dos sinais difíceis de ler
o silêncio da poesia de vanguarda
o claro silêncio de Mallarmé
e da poesia de vanguarda
o silencia da ilegibilidade de hoje
que vai alimentar a legibilidade superior
de amanhã
Hermes é o deus que conduz as almas
até seu destino
o deus que tira o sentido das mensagens
mortas
e as conduz à vida do entendimento
o silêncio “incompreensível para as massas”
a grande acusação contra maiakovski
o silêncio lance de dados
o acaso
uma chance até o absoluto
o silêncio de hitler
o silêncio de hitler
é o silêncio dos tiranos
o silêncio ditado pelo medo
pela tortura
pela prisão
pelo medo da tortura
pelo medo da prisão
o silêncio do terror
o silêncio da censura
o silêncio da auto-censura
o silêncio do medo
criado pelos que têm medo da história.
o silêncio de Graciliano
o silêncio de Graciliano ramos
é o silêncio das memórias do cárcere
o silêncio sibéria
o silêncio gulag
o alto silêncio das consciências incômodas
o silêncio que mussolini deu a gramsci
o silêncio cercado de grades
o grito amordaçado
dos que tiram o sono dos tiranos
o silêncio de webern
é também o silêncio de joão gilberto
entre ouvidos por augusto de campos
num silêncio só
no quarteto samba
de um silêncio só
o silêncio dos grandes mestres da ausência
como mondrian
o silêncio nô
o silêncio elipse
o silêncio substantivo
o silêncio plenitude do som
o silêncio de spengler
para spengler
(“a decadência do ocidente”)
a forma mais completa de comunicação
é a atingida por um casal de velhos camponeses
sentados à porta da sua choupana
ao cair do sol
contemplando o por do sol
em absoluto silêncio
é o silêncio
das coisas com sentido demais
o silêncio depois que tudo já foi dito
o silêncio da maioria
a voz da maioria silenciosa é um silêncio
cúmplice
o silêncio de quem
compactua com o silêncio de hitler
e deixa prosseguir o silencia de Graciliano
o silêncio comodista
dos que dançam conforme a música
o silêncio dos que fingem que não sabem
o silêncio dos que fazem de conta
que não têm nada com isso
o silêncio comprado
com a boa vida
o silêncio dos que dizem
viva
e deixe viver
um toque de silêncio
um minuto de silêncio antes da iluminação.