UM CERTO CONSELHEIRO
À memória de Antônio Conselheiro,
rebelde morto agarrado à sua causa.
Antônio que curava
as chagas daquela gente
infestada de assombros,
naquele Brasil menino,
quando a fome se alastrava
pelos sertões nordestinos...
Antônio que benzia
dos males do quebranto,
dos mistérios para fechar corpo,
dos segredos,
dos encantos,
dizendo-se mensageiro
de uma nova ordem
que repartia a terra
com os que dela precisavam…
Antônio, que aconselhava
a não pagar os impostos,
estabeleceu em Canudos
uma divisão igual da gleba,
numa sociedade incomum
diante da repressão
dos donos hereditários
da felicidade alheia,
e que levantou-se um dia
em guerra contra a tirania...
Antônio, que ensinava
a partilha igual dos bens,
enfrentou as expedições
da República, que não admitia,
dentro dos seus domínios,
um povo forte e bravo,
que se organizava no campo
com fé
e rebeldia...
Antônio, que comandava
uma multidão de famintos
que perambulava pela pátria,
que lhe negava a cidadania,
gente que só queria
terra nova para plantar,
gente que implorava
aos deuses para resistir
àqueles tempos de gládio
frente aos milhares
de soldados assassinos…
Antônio, que não temia
as armas do opressor
que anunciava o extermínio
daquela aldeia de esperança,
colocou-se em sentido
com um exército de desgraçados
possuídos pela rebeldia,
espalhando em cada cabeça
uma certeza da luta
inglória que explodiria
sem trégua,
sem fim,
sem esperança de vitória,
enquanto o sangue ia lavar
o chão dos ancestrais,
e que trazia na mão
um facão para enfrentar
as armas em prontidão…
Antônio, que adivinhava
uma batalha insana,
levantou os braços aos céus
de chumbo que se fechavam
sobre sua cabeça a prêmio,
pedindo aos gritos,
aos brados,
a força de todos os combatentes
das guerras que se travaram
pelos séculos,
pelo mundo,
para enfrentar os soldados...
Antônio, que profetizava
uma refrega contra o demo,
encarniçada
e sangrenta
no Arraial miserável,
sitiado pelo ódio
dos que morriam de medo
de perder esses domínios
para o povo faminto
que desafiava o regime...
Antônio, que fez nascer
pelas bandas do sertão
uma raça destemida,
sem direito à existência,
sem direito à pátria,
sem direito à justiça,
deixou a mais bela história
da luta eterna do homem
pelo direito à Liberdade…
Antônio, com a lição de coragem
de milhares de corpos tombados
sobre o solo nordestino,
para sempre sepultados,
deixou a convicção
de que a terra é do homem
que nela planta a semente
trazida dos ancestrais
e por ela entrega
a vida
que não se humilha jamais…
São Mateus-ES, 19.10.68