terceiro canto de pavor
Há uma pergunta, amigo:
o que é isto, afinal?
A guerrilha se inicia
atrás dos prédios.
Tenho a impressão de ouvir navios,
aviões e trens.
Marcha lenta motocicletas revólver.
Arames cercam ruas,
noticiários riem.
O armazém fechou pela manhã,
o leite foi derramado no rio
porque havia muito.
Entro no jipe,
vejo a terra de longe
com seu mapa engraçado.
Na lousa, a professora
me ensinava sobre os animais
e plantas.
Interessante este poema
na sala de interrogatório.
2. Útil paisagem de tanques metralhados,
danças e episódios,
soltos dentes em bocas costuradas.
Há uma pergunta, amigo:
Que tempo é este, afinal?
A arma dispara o alimento,
projétil penetrante.
Nós ouvimos o discurso
e caminhamos de encontro às paredes.
Uma estrutura pelos golpes
de nossas ferramentas.
Me debato nos ruídos
e me atiro contra o inquebrável,
os que estão na plataforma
e olham o movimento
sem se sujar de lama.
Os santos de celulóide se contorcem.
Pomares abrem portões estranhos.
A lança dança o dócil momento
de terra e arado,
do gado e da planta
num sutil suspiro.
3. Um mundo de sons
em alucinadas pontadas.
O refresco, filme de sombras.
Meu amor, o nosso licor,
nosso exercício,
a nossa culpa, a máxima culpa,
a nossa cópula, a nossa cúpula.
Armas cortam bocas,
operários e fábricas estendem giletes
e um nariz de fumaça.
Passeatas cortam meus olhos
e seus gritos abrem minha gengiva
num soluço.
Cavalos em negras crinas, em negras noites,
envolvem cicatrizes de tédio.
Pratico o crime de aceitar,
como num coito de hotel,
e quando a enfermeira se aproxima,
dou minha vida e minha veia
num instante de dor.
Compro meu psicotrópico, escondido.
4. Relógios apontam ponteiros
mordidos por insetos e transeuntes.
Seus documentos, por favor.
Abelhas voam cabeças
e igrejas fecham portas imensas.
Ouço um tiro e o ferimento
é um olho no meio da noite e da vida.
Nascimento: 9 de fevereiro de 1942.
Homens minúsculos caminham
sorrisos doentes na paisagem.
Todas as armas assinaladas,
todas as caras em depósito.
Nome do pai, nome da mãe.
Os reis passam sorridentes,
o país foi salvo.
Profissão.
Músicas cubanas,
norte-americanas, francesas,
chinesas, bolivianas, russas,
paraguaias,
catecismo e boletins.
Nacionalidade.
O país foi tomado de repente,
o povo é livre.
Endereço.
A solenidade contou com a presença
de altas autoridades
e representantes dos meios eclesiásticos.
Assine aqui.
Calvas cabeças se mostram,
velhos políticos sorriem
diante das máquinas fotográficas.
Estou sendo morto
encostado numa igreja.