Simposium

Renata Pallottini

SIMPOSIUM

 

1

 

NÃO HÁ DOR que mereça o ser exposta:

nega-te ao sacrifício da confidência e ao dever frio

da consulta médica.

Melhor seguir o curso da loucura.

Um caminho sangrante, estrada árdua de terra,

te espera, como outra jornada;

que podemos fazer? É fácil ser feliz.

Podes chegar amanhã depressa à praça,

ouvir o canto dos pássaros e tudo o mais.

Talvez te seja dado ver as flores dos outros,

o cântico dos outros, os amores dos outros.

Mas quê? Acaso te foi dada outra vida que não a tua?

Acaso és filho de mais alguém, que não teus pais?

E se tens de sofrer, não é teu o sofrimento?

Quando tiveres pronta a alegria, quererás reparti-la com os outros?

Ninguém mora por muito tempo em casa alheia.

Engravida de tua vida, engravida de tua dor.

Não a cultivarás por certo, mas ela se cultivará

a si própria, e dará flores, como tudo.

Serão tuas, as flores.

Mas principalmente, não descrevas a ninguém o seu processo;

como os amores, as flores devem crescer em segredo.

E que não se conheça o adubo que as possibilita.

O outro homem é o outro homem.

Estás só como quem mais.

É bom ser só, pelo menos por algumas horas,

e se estas horas se prolongam, isto acabará por ser muito bom.

Estás mais só do que os outros,

porque vives como se estivesses acompanhado.

Antes a solidão pura das pedras.

O outro homem é o outro homem e não sabe nada.

Cresceste acompanhando a vida quente do povo da rua.

Esse fervor sacrificado, essa febril perseguição

prosseguem.

E o povo da rua te pergunta e não sabes responder.

No frio ardor da madrugada caminhas tonto

as ruas como páramos e desejas os páramos,

os ramos como longos corredores e desejas um canto

absolutamente silencioso

onde esconder tua sede de silêncio.

Cala-te cada vez mais, e um dia serás mudo como um deus desesperado.

Quem te deu esse trabalho que hoje fazes?

Sabes bem que não é esse o teu trabalho,

conheces bem o teu serviço, mas estás impedido de fazê-lo.

Quem te manda fazer o que não sabes?

Quem te impele a ganhar a vida mentindo?

Podias fazer sapatos, ou esquadrias, ou livros.

Fazes mentiras.

Não há ouro que mereça a pena de ser ganho.

Olha: quando tens fome, é de pão que tens fome;

quando tens frio, aceitarias a lã.

Mas tudo isso de fato e simplesmente.

Por que contas ao outro a história de tuas misérias?

Que silêncio é esse que persegues com palavras?

 

2

 

Mais uma vez, na rua tranquila, estamos reunidos.

Tremem as mãos, e as folhas verdes sussurram. Elas ainda dormem,

ou estão quase dormindo. As aves são mais lestas,

pois sabem que o amanhã é breve. A rua leva

a uma praça embuçada e quieta. Entre barbas e cílios

fumam os homens e as mulheres fiam.

Mais uma vez nos dizem que não somos nada

aqueles a quem tudo confiamos. A política,

como alto exercício, em fina flor, roçamos.

Do sumo de seu trono alvas vozes pipilam,

o ministerial silêncio sobrevém. Sonhamos

que estamos vivos num país humano

onde se falas a alguém falas e ouvem.

E se ouves é porque algo te foi dito.

Mais uma vez a exílio te condenam.

Que mais? Ninguém te ouve. É tarde. Parte.

 

3

 

Vestida com teus cabelos

juventude perseguida

o nu de uma flor na mão

entre bombas e estilingues

fazes do outrora brinquedo

tua defesa teu medo

   teu suor

o teu amor

   se fez na mesa de estudo

   nas greves de todo o mundo

Desnudo corpo os cabelos

agridem as convenções

   de rotários

   ah! rotários!

senhores convencionais

que vivem como os mais vivos

e tu morres tiro ao alvo

tu morres subversivo

morres incêndio protesto

morres fogo tiro bomba

e tu jazes flor na mão

nu e não escandalizas

teus cabelos permanecem

se amor fizeste está morto

se amaste não se te vê

jovem morto morto morto

tu sabes e eu sei por quê.

 

4 POEMA DA RUA MARIA ANTÔNIA

 

Por sobre o muro

voam bombas e garrafas incendiadas

pedras agudas e palavras

duras.

Por sobre o muro

voa a lembrança de um amor que houve

uma visão passada e deslocada

que tenta ultrapassar o muro e do alto

proclamar-se intocada.

Mas as garrafas incendeiam tudo

e as palavras

tornam menos urgente o amor antigo

e mais urgente o aviso:

esta é a guerra das guerras

guerra civil dos que foram amigos.

Por sobre o muro

espio com espanto o pátio incendiado

os jovens que se atingem entre lágrimas

os feridos e os gestos e os detalhes.

Minha cabeça ponho sobre o muro.

É uma cabeça desligada do seu corpo

como a cabeça de um guilhotinado

de olhos abertos.

Com meus olhos abertos sobre o muro

vejo o sangue e a fumaça da contenda.

Não posso distinguir qual dos lados do muro

é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.

Meus olhos na cabeça decepada,

buscam ansiosamente sobre o muro

o caminho mais curto, a razão mais sensata,

ou pelo menos a mais desinteressada.

Meus olhos, na cabeça desnorteada

procuram com inútil desespero

a arma de lutar, a faca de se defender,

o punho de atacar.

Na cabeça infeliz meus olhos são culpados

de verem o que aos mortos foi negado.

 

5

 

E no entanto era bom andar na rua calma,

sentir o cheiro de carvão das casas aquecidas

quando o inverno era um manto de silêncio.

De todo o coração eu recebia aquele tempo estável,

a ausência de notícias, a ausência de perguntas,

e o vinho sem disputas na taverna do bairro.

Então eu me sentia de outra idade

entre muros altíssimos e pontes que se fechavam:

a proteção provinha do castelo.

Então eu era um ponto na paisagem dada,

todos sabiam tudo e eu, pobre coitada,

não tinha que saber nem entender de nada.

Amor como um direito, pão como um direito

e calor para os versos quando vinham.

Não penseis que é prazer testemunhar o amargo,

ser portador de tristes novas, ser o pulso

onde bate todo o sangue derramado.

Não penseis que há conforto em ver o mundo

terrivelmente aberto em duas metades,

em ter que ser à força de um dos lados

e ter que ser expulso do outro lado.

Eu tinha então a límpida esperança

de que a terra era a Terra, e que o homem, à mesa,

podia, entre dois copos, dizer sua palavra.

 

6

 

Há um instante em que o certo é vazar os dois olhos

e recusar-se à visão do infortúnio.

A desgraça interior é que basta aos inúteis.

 

7

 

Não rimarei a palavra autoridade
com a inconsequente palavra crueldade.

 

8

 

Subversivo e perverso

morre um jovem na rua.

Uma bala varou seu crânio perigoso

e seus braços, que ameaçavam a paz

estão inertes.

Tinha os olhos abertos para a visão da vida

e com eles, por certo, era capaz de grandes crimes.

(Tivera só vinte anos para cometê-los.)

Agora estão fechados os seus olhos.

Os pés, que pouco tinham caminhado

eram, naturalmente, mensageiros do mal.

Estão cortadas as suas asas tenras.

As palavras desprezíveis que não disse,

que nem sequer murmurar pode,

foram-lhe devolvidas pela morte.

Como se pode ver, foi refeito o equilíbrio.

Podemos todos dormir sem sobressalto,

alheios ao que faz do mundo a guerra,

solenemente longe e amplamente ignorando tudo.

Ah, quem pudera

ser o eterno estrangeiro, o ausente vivo em sua terra!

Julgar com vãs palavras a vida circunstante,

e não sentir no âmago essa morte,

não ter as mãos debaixo desse sangue!

 

9

 

Esse amor frio, proposto nas alturas

de um vigésimo andar ao som de qualquer música,

pré-bebido com gelo e preparado

a que ponto te atrai? Em que passo te sentes

conviva do festim com vinho e flores

e a luz das tochas e a vida com seus suores

e os ruídos, e a humana companhia?

Não te agrada a visão reclinada e confusa

de comensais e sua gula clara?

E se chovesse agora não sairias,

homem perplexo, a lavar-te nessa chuva?

 

10 POEMA DA RUA DOS INGLESES

 

Contemplando a escada nua, banhada de luar

e os tetos chatos, e a cidade ao longe,

mesmo sob as árvores a vida me parece uma mentira

e toda luta um grito não articulado.

Os jovens se rebelam mas seus cabelos crescem,

seus braços sentem frio e o sexo é uma constante.

Nessa rebelião o sexo é uma constante.

Penso que o amor é como olhar esta lua e ter pena,

olhar os moços com frio e os tetos planos,

beber vinho e ter amigos, isso é amor.

Penso que a luta deles é uma forma de coito

e não é essa a luta que eu quisera.

Às vezes sua luta é uma forma de lucro.

Se ignoro que isto me dá asco, então não me conheço.

Eu queria uma luta da palavra,

da desgastada liberdade,

do longínquo direito de ser digno.

Depois de feito todo o trabalho, dormiríamos uns com os outros,

e a cópula eventual seria doce.

Não quero para mim esse amor como descarga,

nem menos esse heroísmo como descarga.

Para entender-nos, falaríamos uns com os outros,

e ninguém seria proibido de ouvir.

Diríamos no entanto o que fosse preciso,

sem o mel das palavras, sem o fel das palavras.

Diríamos apenas o que fosse essencial

e contemplaríamos o silêncio, como eu contemplo agora

e escada nua e longa, banhada de luar.

 

 

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