É difícil dizer se há três poemas ou apenas um. O título nomeia “Poeminhas”, mas a página traz apenas um geral e três espécies de títulos de seções. Assim, há um tríptico – uno e trino – girando em torno da relação entre mídia e sociedade, sendo que tal reflexão milloriana é publicada durante os Anos de Chumbo. O primeiro desses “poeminhas”, “Alienação”, tensiona a forma livre e o haicai, lembrando mesmo os textos do livro “Hai-kais”, também de Millôr Fernandes; ademais, a ideia de “ação”, termo muito utilizado na práxis política da esquerda brasileira da época, é ironicamente questionada, tecendo um falso elogio à televisão, a qual, tanto na rima quanto na vida, alinha-se à alienação. O segundo texto, “Visita”, pode ser lido independente dos outros dois, ou como um acolhimento da visita imprevista – será a televisão vista pela população? Por fim, “Social-Fiction", isto é, uma ficção social, ironiza os super-heróis, tão marcantes na colonização promovida pelo imperialismo da cultura americana; os seres ficcionais são enganadores da população, do trabalhador, na medida em que prometem – e não cumprem – melhorias de vida. Assim, em linhas gerais, os “Poeminhas Inconcretos” – em uma recusa do que é concreto, na medida em que observa a mídia, e em recusa ao Concretismo, movimento de poesia brasileira – mostram a afinidade dos Anos de Chumbo com a alienação promovida pela mídia. O trabalhador não vai à luta por melhorias, mas fica diante da televisão meio alienado, meio alienado demais. Preso por vias tecnológicas, tudo que a antena capta o seu coração captura.
Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.
O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.
— Financiamento e realização
Projeto de pesquisa que visa criar um repositório de poemas brasileiros que retrate a vida no país durante a ditadura militar, contando com pesquisadores de várias instituições e estados, aberto à colaboração de leitores e estudiosos para sugerir poemas a integrar o levantamento
Comentário do pesquisador
É difícil dizer se há três poemas ou apenas um. O título nomeia “Poeminhas”, mas a página traz apenas um geral e três espécies de títulos de seções. Assim, há um tríptico – uno e trino – girando em torno da relação entre mídia e sociedade, sendo que tal reflexão milloriana é publicada durante os Anos de Chumbo. O primeiro desses “poeminhas”, “Alienação”, tensiona a forma livre e o haicai, lembrando mesmo os textos do livro “Hai-kais”, também de Millôr Fernandes; ademais, a ideia de “ação”, termo muito utilizado na práxis política da esquerda brasileira da época, é ironicamente questionada, tecendo um falso elogio à televisão, a qual, tanto na rima quanto na vida, alinha-se à alienação. O segundo texto, “Visita”, pode ser lido independente dos outros dois, ou como um acolhimento da visita imprevista – será a televisão vista pela população? Por fim, “Social-Fiction", isto é, uma ficção social, ironiza os super-heróis, tão marcantes na colonização promovida pelo imperialismo da cultura americana; os seres ficcionais são enganadores da população, do trabalhador, na medida em que prometem – e não cumprem – melhorias de vida. Assim, em linhas gerais, os “Poeminhas Inconcretos” – em uma recusa do que é concreto, na medida em que observa a mídia, e em recusa ao Concretismo, movimento de poesia brasileira – mostram a afinidade dos Anos de Chumbo com a alienação promovida pela mídia. O trabalhador não vai à luta por melhorias, mas fica diante da televisão meio alienado, meio alienado demais. Preso por vias tecnológicas, tudo que a antena capta o seu coração captura.