Poema do Soldado Morto
o combatente do medo
armado até as gengivas
pra combater um segredo
partiu
e nem sabia por que
o combatente do medo
(filho em si de camponeses)
chegou sangrou camponeses
massacrou jogou napalm
e nem sabia por que
o combatente do medo
na sombra da selva espessa
tombou sob o grão de fogo
de uma bala guerrilheira
e nunca soube por que
e os generais, que entrementes
guerreavam — nos banquetes
batizaram-no de herói
e recrutaram mais trinta
que nem sabiam por que
* *
6 vós, soldados do medo
irmãos e filhos do povo,
voltai vossas tristes armas
contra quem vos faz escuros
contra quem vos faz escudos
dos seus escusos projetos !
sustai todas vossas alas
guardai todas vossas balas
para os generais abjetos !
Comentário do pesquisador
De acordo com a apresentação da obra, assinada por um grupo de familiares dos mortos do Araguaia: "Estas poesias foram feitas provavelmente pelos guerrilheiros do Araguaia. Sua primeira publicação parcial se deu em 1979 no Jornal "Resistência", do Pará. [...] Quem as lê percebe que, de fato, foram feitas por pessoas muito íntimas da guerrilha. O prefácio original - "Cantar é preciso", escrito todo no plural, contradiz a assinatura de um único autor no final do mesmo. Libério de Campos pode ser, inclusive, uma alusão dos autores aos objetivos de sua luta - "Liberdade-Camponeses".