POEMA DA MORTE VIVA
Para os que levam a vida
carregando uma causa perdida.
Mortos, são sepultados sem direito à cruz.
A palavra está sufocada
num peito em brasa,
ardendo em chamas,
mas não está morta.
A esperança está perdida,
pelos escombros,
pelos esconsos,
mas não está morta.
A dignidade foi revogada,
partida ao meio,
levada a cabo,
mas não está morta.
A justiça foi esquecida
na cabeça do juiz,
dentro dos tribunais,
mas não está morta.
A felicidade foi proibida
em cada casa,
em cada pessoa,
mas não está morta.
A verdade está escondida
sob sete chaves,
como um mistério,
mas não está morta.
A poesia está censurada,
afugentada dos livros,
banida das ruas,
mas não está morta.
A inquietação foi dominada
pela força das armas,
pelo abuso de poder,
mas não está morta.
A cidadania foi reprimida
em cada corpo,
em cada coração,
mas não está morta.
A felicidade foi esquecida
da lembrança dos velhos,
do peito dos moços,
mas não está morta.
A Nação foi possuída,
abafada na dor,
afogada no martírio,
mas não está morta.
A Liberdade foi tolhida,
proibida nas ruas,
afugentada deste tempo,
mas não está morta.
Até a morte está viva…
Rio de Janeiro, 10.6.74