[Os dias passam iguais]

Loreta Valadares

Os dias passam iguais

desfilando diante de mim

em solene passeata

Os homens morrem iguais

morrendo diante de mim

a mesma morte por dentro

 

E eu sangro.

Sangro nos olhos vazados

pelo sarcasmo dos que riem

Sangro nas mãos cortadas

pelo gozo dos que não trabalham

Sangro na língua arrancada

pela covardia dos que não dizem

 

Apunhalaram-me de frente

porque prá frente andava

passo por passo

Trago um punhal no peito

e sangro.
Sangro lágrimas

Sangro náuseas

 

SP, março 67

 

 

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