OS CORPOS SOB SEVÍCIA
Os corpos nus debatem-se
diante da ameaça infame
dos atrozes em seus capuzes
a olhar pelos orifícios
para os olhos sob domínio,
e nas mãos a ignomínia
a apontar para as carnes
toda a desonra possível.
Muitos trazem no regaço
a marca vil do suplício,
e gritam desesperados
de pavor
em indulgência.
Muitas vezes diante dos filhos
são obrigados a confessar
os crimes de consciência;
muitas vezes tiveram
que denunciar os companheiros
escondidos pelos labirintos;
muitas vezes contra as paredes
deixaram as tatuagens,
enquanto outros nada falam
além do que é deixado
como recordação indelével
em sangue seco
e suor.
Nas mãos da tirania,
animais peçonhentos,
cobras,
aranhas,
escorpiões,
surgem prontos ao ataque
dos ventres desprotegidos.
As mulheres estremecem
diante dos algozes;
uns gritam que parem com aquilo;
outros confessam as convicções,
entregam os corações,
para salvar a vida
que se bate em sua frente.
Há os que resistem
com os olhos traspassados,
incrédulos, como a desafiar
o regime que se apodera
das criaturas indefesas.
As mãos dos carrascos trabalham
no ofício da desonra.
Introduzem nos genitais
baratas,
ratos,
besouros,
percevejos,
lacraias,
aranhas,
que passeiam pelos grandes lábios,
chegam ao colo do útero,
corroem as almas,
misturam-se entre os tormentos.
Outros são enfiados no ânus,
cobrem o pênis flácido,
espalham-se pelos testículos,
são colocados sobre os seios,
até que confessem,
confessem,
confessem,
confessem
os crimes não cometidos.
Aquelas criaturas desejam
a morte mais do que nunca,
e quando todos admitem
os pecados inexistentes
e os algozes recolhem as ameaças
pelos quatros cantos da sala,
frente os que tentam fugir
do inferno deste tempo
nem imaginam
que ainda são criaturas
humanas entre os animais.
Os corpos debatem-se
neste nosso tempo de hoje,
e talvez nem se recordem
da imensa aflição
a que foram submetidos.
Muitos talvez esquecerão
do suplício sofrido,
e enlouquecidos viverão
pelo breu do esquecimento;
outros esconderão no peito
a dor resignada;
outros carregarão
nos olhos as lembranças;
outros escreverão
poemas que nunca serão lidos.
Os corpos sob sevícia
não mais se olham no espelho,
mesmo quando estão sozinhos…
Rio de Janeiro, 7.11.73