Os corpos sob sevícia

Maciel de Aguiar

   OS CORPOS SOB SEVÍCIA

 

 

Os corpos nus debatem-se

diante da ameaça infame

dos atrozes em seus capuzes

a olhar pelos orifícios

para os olhos sob domínio,

e nas mãos a ignomínia

a apontar para as carnes

toda a desonra possível.

Muitos trazem no regaço

a marca vil do suplício,

e gritam desesperados

de pavor

em indulgência.

Muitas vezes diante dos filhos

são obrigados a confessar

os crimes de consciência;

muitas vezes tiveram

que denunciar os companheiros

escondidos pelos labirintos;

muitas vezes contra as paredes

deixaram as tatuagens,

enquanto outros nada falam

além do que é deixado

como recordação indelével

em sangue seco

e suor.

Nas mãos da tirania,

animais peçonhentos,

cobras,

aranhas,

escorpiões,

surgem prontos ao ataque

dos ventres desprotegidos.

As mulheres estremecem

diante dos algozes;

uns gritam que parem com aquilo;

outros confessam as convicções,

entregam os corações,

para salvar a vida

que se bate em sua frente.

Há os que resistem

com os olhos traspassados,

incrédulos, como a desafiar

o regime que se apodera

das criaturas indefesas.

As mãos dos carrascos trabalham

no ofício da desonra.

Introduzem nos genitais

baratas,

ratos,

besouros,

percevejos,

lacraias,

aranhas,

que passeiam pelos grandes lábios,

chegam ao colo do útero,

corroem as almas,

misturam-se entre os tormentos.

Outros são enfiados no ânus,

cobrem o pênis flácido,

espalham-se pelos testículos,

são colocados sobre os seios,

até que confessem,

confessem,

confessem,

confessem

os crimes não cometidos.

Aquelas criaturas desejam

a morte mais do que nunca,

e quando todos admitem

os pecados inexistentes

e os algozes recolhem as ameaças

pelos quatros cantos da sala,

frente os que tentam fugir

do inferno deste tempo

nem imaginam

que ainda são criaturas

humanas entre os animais.

Os corpos debatem-se

neste nosso tempo de hoje,

e talvez nem se recordem

da imensa aflição

a que foram submetidos.

Muitos talvez esquecerão

do suplício sofrido,

e enlouquecidos viverão

pelo breu do esquecimento;

outros esconderão no peito

a dor resignada;

outros carregarão

nos olhos as lembranças;

outros escreverão

poemas que nunca serão lidos.

Os corpos sob sevícia

não mais se olham no espelho,

mesmo quando estão sozinhos…

 

 

Rio de Janeiro, 7.11.73

 

 

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