Onde estão os homens?
Saio
pelas ruas
em busca de um sorriso transparente
que eu quero adormecer a tristeza
e confundir as ameaças
Só encontro bocas.
Bocas amargas
espasmódicas
bocas metálicas
de dentes carcomidos
Milhares de bocas
nas vitrines das lojas
abertas
espantadas
sonolentas
bocas caladas
amordaçadas
bocas aglomeradas nas esquinas
produzindo sons estranhos
bocas, bocas, bocas
só bocas...
Saio
pelas ruas
em busca de um canto diferente
que eu quero soltar a liberdade
e apagar o medo.
Só encontro olhos.
Olhos arregalados
sem brilho
sem luz
olhos apagados
que não se enxergam de dia
Mil olhos no escuro
a piscar regularmente
olhos amortecidos
por sombras opacas
olhos que se olham
e que não se veem
olhos de mortos...
Saio
pelas ruas
em busca de homens acordados
que eu quero anunciar a luta
e desimpedir o caminho
Só encontro o medo
a incompreensão
o egoísmo
Não encontro homens —
só muletas
Saio
pelas ruas
irreconhecíveis
da terra que é minha
em busca de ar puro
o rosto prá cima
os pulmões contraídos
e o grito mil vezes sufocado —
onde estão os homens?
onde estão os homens da minha geração?
e as mulheres, onde estão?
onde estão?
onde estão?
onde estão?
.......................................
a resposta covarde do silêncio
incorpora-se no ar pegajoso
e o rastro da ausência
deixa um pó amarelo
sobre o caminho que percorro.
novembro, 1966