O relógio é um órgão metálico em
nosso pulso. Todos ergam as mãos e
chorem as mães: o sermão do viaduto
vai começar: o trigo subirá à pedra
para a espiga do homem, e existirá
no rosto das estátuas. Eu exigirei
o retorno dos fugitivos da vida.
Nós vamos amarrar símbolos de ferro
nos pés, e gerar outro sentido da planta.
É preciso cavoucar no silêncio que se fez
na língua da escravidão; vamos à passagem,
ao deserto, expulsar do caminho a
sombra do cactus e cobrir as chagas
com o coração.
Sim, eu amarei com a dor de um parto, e
estarei pleno de minhas convicções
para arranhar os grandes chifres dos enganados e
chorar um dilúvio em outra época
para erguer a estrela que caiu.
Nós vamos ouvir as profecias da solidão e
tirar uma fotografia mais sozinhos,
para depois, ainda mais sozinhos,
ir à porta de um convento, pedir
que abram a igreja a qualquer hora da noite.
Nós iremos à fonte lavar a alma e
enterrar uma angústia num poço.
Na galeria de um espaço qualquer,
iremos colar os cacos dos corpos dos
amantes amaldiçoados. Sim, este sim
batendo nas portas do cérebro, e esta
reviravolta no pressentir que a vida
está indo embora.
Vamos indo sim para o sistema de ir sim,
vamos censurar a censura dos ditadores,
vamos beber limonada numa tarde, sentados
num túmulo esquisito, sem forma.
É preciso soldar os corações com chumbo.
Eu falo em nome de todos os tristes,
peço a construção de novas catacumbas
para os fugitivos do século vinte.
Vamos amanhã a uma cidade destruída
esconder nosso sentimento num buraco,
no canto mais ermo do mundo.
Depois acenderemos a vela com a cera
do percurso: o seio da mulher adorada
deitará mais leite, a volta será o porto,
o porto é sempre o início.
Nós perdemos a concepção de ignorar, a
participação não define a posição dos inocentes.
Eu irei à mistura das organizações
tomar partido, e a um parque
brincar de ser mais triste.