O sermão do viaduto [fragmento]

Alvaro Alves de Faria

O relógio é um órgão metálico em

nosso pulso. Todos ergam as mãos e

chorem as mães: o sermão do viaduto

vai começar: o trigo subirá à pedra

para a espiga do homem, e existirá

no rosto das estátuas. Eu exigirei

o retorno dos fugitivos da vida.

Nós vamos amarrar símbolos de ferro

nos pés, e gerar outro sentido da planta.

É preciso cavoucar no silêncio que se fez

na língua da escravidão; vamos à passagem,

ao deserto, expulsar do caminho a

sombra do cactus e cobrir as chagas

com o coração.

Sim, eu amarei com a dor de um parto, e

estarei pleno de minhas convicções

para arranhar os grandes chifres dos enganados e

chorar um dilúvio em outra época

para erguer a estrela que caiu.

 

Nós vamos ouvir as profecias da solidão e

tirar uma fotografia mais sozinhos,

para depois, ainda mais sozinhos,

ir à porta de um convento, pedir

que abram a igreja a qualquer hora da noite.

Nós iremos à fonte lavar a alma e

enterrar uma angústia num poço.

 

Na galeria de um espaço qualquer,

iremos colar os cacos dos corpos dos

amantes amaldiçoados. Sim, este sim

batendo nas portas do cérebro, e esta

reviravolta no pressentir que a vida

está indo embora.

Vamos indo sim para o sistema de ir sim,

vamos censurar a censura dos ditadores,

vamos beber limonada numa tarde, sentados

num túmulo esquisito, sem forma.

 

É preciso soldar os corações com chumbo.

 

Eu falo em nome de todos os tristes,

peço a construção de novas catacumbas

para os fugitivos do século vinte.

Vamos amanhã a uma cidade destruída

esconder nosso sentimento num buraco,

no canto mais ermo do mundo.

Depois acenderemos a vela com a cera

do percurso: o seio da mulher adorada

deitará mais leite, a volta será o porto,

o porto é sempre o início.

Nós perdemos a concepção de ignorar, a

participação não define a posição dos inocentes.

Eu irei à mistura das organizações

tomar partido, e a um parque

brincar de ser mais triste.

 

 

 

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados