O Presídio Tiradentes

Maciel de Aguiar

O PRESÍDIO TIRADENTES 

 

 

Nas noites da Paulicéia

o Presídio Tiradentes
recebe os condenados
para conversar com os fantasmas.
Gentes que chegam trêmulas
de toda parte para averiguação:
alguns sem saber ao menos
se escaparão em vida;
outros, dos crimes que cometeram e não sabem, 

além dos que se indagam
na fila eterna do suplício
pela hora do interrogatório.
Os corpos nus amarrados
uns aos outros como irmãos
siameses que serão mergulhados
nos tanques em caldos infames
que lhes sufocam a palavra
na garganta entremeada de gosma.
O Presídio Tiradentes,
com os camburões apressados,
recebe os infelizes
para a provação do demo.
Gentes procuradas pela consciência
misturadas com crimes comuns
nas mesmas celas levadas
a conhecer os fantasmas:
jovens que ainda não viveram
os anos de inocência;
estudantes com os cadernos
rabiscados de poemas;
velhos octogenários
de cachecol no pescoço;
mães solteiras;
operárias;
viúvas;
marginais;
vendedores ambulantes;

poetas que nunca serão publicados. 

Gentes desempregadas,
que por ventura passeavam 

desprevenidas pela rua,
agora são tratadas
como hediondos
e facínoras,
terroristas procurados,
quando terão que responder
às perguntas do regime: 

— Qual a sua organização?

Qual o seu verdadeiro nome?

Qual o seu endereço?

Começa a correria nas ruas
em busca dos aparelhos 

clandestinos espalhados
pela cidade de milhões
de almas estarrecidas.
Uns são presos de surpresa, 

outros resistem enquanto podem, 

além dos que se jogam
do alto dos edifícios
com medo de perder os testículos, 

as unhas,
os dentes,
as costelas,
acreditando que a morte 

precipitada aos ares
seja menos dolorida
que a imposta pelas mãos
dos agentes encapuzados.
O Presídio Tiradentes
abre as portas de mistério
por onde entram os desgraçados: 

os açoitados pelas noites,
os judiados na escuridão,
os Cristos de nosso tempo; 

corpos dos quais muitas vezes 

nunca mais se terá notícia. 

Muitos nem sentirão falta,

outros nem serão procurados 

na Lista dos Desaparecidos

outros serão trucidados
no “confronto” com a federal,

outros jogados ao mar,
outros no Tietê,
outros cavarão a própria cova 

sem direito à cruz, 

nem data,
nem nome,
pelas cercanias da cidade.
O Presídio Tiradentes
nem se dá conta da vida
de quem lhe emprestou o nome 

ao longo dos séculos de lutas 

em busca da Liberdade.
O Presídio Tiradentes 

esquarteja ainda os corpos 

dos inconfidentes deste tempo, 

que encontram a desgraça 

nas noites da Paulicéia.
O Presídio Tiradentes 

escreve nas paredes
as histórias dos mártires
que por longos anos vindouros 

dormirão no esquecimento. 

O Presídio Tiradentes 

também espera pelo seu dia… 

 

 

 

                    São Paulo, 26.9.73

 

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Coordenação

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Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

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Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

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Susana Souto Silva (UFAL)

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