O (de) Itabira

Marcus Accioly

Com os ombros frágeis tocas as estrelas

Atlas-menino em cujas mãos separas

a própria luz do corpo das esferas

 

e a música do espaço-tempo (as árias

dos anjos que invisíveis no silêncio

fazem vibrar das semoventes asas)

 

que heptacordo tens no braço penso

de poeta e o roças com teus lábios

para afinar as lâminas do vento?

 

Ó Carlos (fazendeiro de alguns pássaros

e capineiro do teu pai Andrade)

sabes a flauta doce e os bambus ásperos

 

das cigarras da infância e a cavidade

dos pífanos (ossos de Itabira

ou Sírinx do deus Pã?) a voz suave

 

das fábulas do rio (o Curupira

ou a Caipora) que vomita as águas

de uma verdade que se quer mentira

 

Para esconder dentro do medo as mágoas

dos homens que se curvam sobre o fogo

e em vez de encher a América de lágrimas

 

unem seu canto ao mar para um só fôlego.

Ó Tirésias-Drummond de olhos azuis

como bolas-de-gude (o mesmo jogo

 

de crianças no pátio exposto à luz

dos belos horizontes nas calçadas)

"pés descalços" – poeta – "braços nus"

 

atrás do voo dos anos (das boiadas

de bois de barro) o exílio sem fazenda

nem as minas das esmeraldas.

 

O presente é o passado em sua lenda

(com as linhas de um poema ou de um soneto

que em vez de chave-de-ouro tem a emenda

 

do outro tempo-futuro) o espaço estreito

que vaza na memória (clepsidra

ou ampulheta?) o tempo em branco e preto.

 

Urso-polar hibernas tua vida

com uma palavra só: abelha-mosca

que sobre a folha de papel se vidra.

 

Vale a pena cantar (que não te ouça

o verme sob o corpo ou a pedra cega

e a toupeira que cava a sua fossa)

 

vale a pena sonhar – Carlos – sossega

que as mulheres te amam com seus zelos

e o verso entregue traz a inversa entrega

 

do coração: as carnes e os cabelos

para dormires entre o meio-sono

e conhecê-las ou desconhecê-los.

 

Carlos Drummond de Andrade (o abandono

e a ambição do mundo não têm cura)

o Diabo é o rei da Terra e Deus é o dono

 

do Céu que pesa em sua Mão segura.

Ó redondo equilíbrio das galáxias

coisas suspensas sobre coisa alguma

 

de onde se movem como rodas altas

ou Cães-de-Caça contra Lebre branca

da cauda do cometa em que viajas

 

nos teus sonhos de Kepler (na mecânica

celeste) Ó Galileu deste unir/verso

de pedras luminosas (sombra ou mancha

 

de Andrômeda gerando o teu mistério?)

e da escura Cabeça-de-Cavalo

à luz de leite acesa por teu verso

 

tu caminhas – do Caos ao Cosmos – Carlos.

 

 

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— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

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