Com os ombros frágeis tocas as estrelas
Atlas-menino em cujas mãos separas
a própria luz do corpo das esferas
e a música do espaço-tempo (as árias
dos anjos que invisíveis no silêncio
fazem vibrar das semoventes asas)
que heptacordo tens no braço penso
de poeta e o roças com teus lábios
para afinar as lâminas do vento?
Ó Carlos (fazendeiro de alguns pássaros
e capineiro do teu pai Andrade)
sabes a flauta doce e os bambus ásperos
das cigarras da infância e a cavidade
dos pífanos (ossos de Itabira
ou Sírinx do deus Pã?) a voz suave
das fábulas do rio (o Curupira
ou a Caipora) que vomita as águas
de uma verdade que se quer mentira
Para esconder dentro do medo as mágoas
dos homens que se curvam sobre o fogo
e em vez de encher a América de lágrimas
unem seu canto ao mar para um só fôlego.
Ó Tirésias-Drummond de olhos azuis
como bolas-de-gude (o mesmo jogo
de crianças no pátio exposto à luz
dos belos horizontes nas calçadas)
"pés descalços" – poeta – "braços nus"
atrás do voo dos anos (das boiadas
de bois de barro) o exílio sem fazenda
nem as minas das esmeraldas.
O presente é o passado em sua lenda
(com as linhas de um poema ou de um soneto
que em vez de chave-de-ouro tem a emenda
do outro tempo-futuro) o espaço estreito
que vaza na memória (clepsidra
ou ampulheta?) o tempo em branco e preto.
Urso-polar hibernas tua vida
com uma palavra só: abelha-mosca
que sobre a folha de papel se vidra.
Vale a pena cantar (que não te ouça
o verme sob o corpo ou a pedra cega
e a toupeira que cava a sua fossa)
vale a pena sonhar – Carlos – sossega
que as mulheres te amam com seus zelos
e o verso entregue traz a inversa entrega
do coração: as carnes e os cabelos
para dormires entre o meio-sono
e conhecê-las ou desconhecê-los.
Carlos Drummond de Andrade (o abandono
e a ambição do mundo não têm cura)
o Diabo é o rei da Terra e Deus é o dono
do Céu que pesa em sua Mão segura.
Ó redondo equilíbrio das galáxias
coisas suspensas sobre coisa alguma
de onde se movem como rodas altas
ou Cães-de-Caça contra Lebre branca
da cauda do cometa em que viajas
nos teus sonhos de Kepler (na mecânica
celeste) Ó Galileu deste unir/verso
de pedras luminosas (sombra ou mancha
de Andrômeda gerando o teu mistério?)
e da escura Cabeça-de-Cavalo
à luz de leite acesa por teu verso
tu caminhas – do Caos ao Cosmos – Carlos.