I
Roda poesia
de noite e de dia
o galo cantou
sem calças ficou
II
Acorda úmida a montanha
do amor da nuvem amante
que agora acorda no canto do galo
Nuvem névoa
nuvem bruma
chuva fina escorrendo fina
pela encosta da montanha
Banho matinal da nuvem desperta
O sol invisível tremeluz
e enxuga o corpo impalpável da nuvem
que assim se fez leve e leve se levanta
do leito da montanha amante
onde passou toda a noite
A nuvem se arrasta devagar
espreguiçando molemente
sobre o corpo onde semeou o amor
Corpo que agora repousa em ligeiros arrepios
de úmidos beijos
O último beijo nupcial
estala sem ruído no verde lábio brejeiro
da formosa montanha
leito amante
O sol marca contornos no horizonte
e perto
O sol traz a consciência do dia
na cabeça da nuvem vapor
A nuvem levantou lépida
e prepara seu trabalho diário
de alimentar cabeças longínquas
e perto
Cabeças que só o vento soprando
é veículo para alcançar
As cores acordaram na natureza
frutos
de amor
Acordaram os ruídos das coisas
Acordou a aldeia global
Levantaram os homens
que precisam ser acordados
para as coisas
para o trabalho
para o homem
Mas a nuvem leveza
pulou do leito amante
e na amplidão da vertigem do céu agora voa
de quatro direções
A nuvem voa leve
pois na pressa de acordar
e cair fora do leito amante
ficou sem calças
Assim voa mais alto
inatingível
sem lastro sem bandeira no mastro
sem compromisso
e com um dia inteiro pela frente
de trabalho infértil o vento espalha
no campo estéril aquém e além
montanha musa amante amante campo estéril
delírio infecundo desfraldado
esquecido o leito do homem amado
Sem sementes o homem trabalha
Sem armas vai à frente da batalha
Sem mandado social
sem finalidade
sem instrumento
sem método
Está só e segue
vazio
pois à noite a nuvem vem vapor intumescida
volta ao leito da montanha amante
formosa fecunda forma
derramando amor
com pretexto de buscar as calças
que sempre esquece
que sempre esqu
III
Roda poesia
de noite de dia
o galo cantou
sem calças ficou
Werneck/Rio/maio 78