I
Tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
Ai de ti (ai de ti) Latinomérica
que os tambores das tribos já se escutam
e as cadelas não ladram mais que as putas
à coivara da noite e à luz esférica
(quem te canta o destino e a alma épica
que remonta à Atlântida nas águas
do primeiro dilúvio e às chamadas trágicas
da fogueira do mundo que consome
este barro de Deus que se fez homem
dissolveu-se em suor e resta em lágrimas?)
Tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
tum
tum-tum-tum
O que dizem as mãos batendo o canto
no pilão da floresta ou no batuque
da macumba que agora repercute
nos ouvidos do de ar de cada tronco?
(que jaguar põe tições no olhar de espanto
e narinas de fôlego na aldeia?)
que pés riscam poemas sobre a areia
ou no rastro das pedras e das plantas?
(quem te fere a garganta quando cantas
e o teu corpo nas brasas incendeia?)
tum-tum
tum-tum
tum-tum
tum
II
Sobre a espinha dorsal da Cordilheira
(andina) dois vulcões vomitam lava
entre oceanos (verde cabeleira Nicarágua
ou cabeleira azul da Nicarágua?
ó pátria transformada em guerrilheira
contra o tirano transformado em pátria
(desde Rubén Darío que canción
mejor que el pueblo en la revolución?)
o país torturado por Somoza
tem o peito de sangue (quetzal
com mexicana voz de Guatemoc
sobre as brasas da cruz-horizontal:
"Yo no estoy en un lecho de rosas")
e um arco-íris chove no pontal
das lanças (onde espátulas vermelhas
rompem La Guardia e cortam Las Orejas)
tartamudeiam as metralhadoras
se as carabinas riscam luz de fósforo
(as noites incendeiam feito auroras
quando as estrelas caem dentro dos olhos)
rubras nos corpos crescem as papoulas
ensopadas de ópios e de ódios
(que a guerra é a terra que se reconquista
e o ar e a água e o fogo sandinista)
nasce a raiz do exército das árvores
com balas de café e com bananas
de dinamite (se erguem solidárias
baionetas nas lâminas das canas)
quando os rios lançam chamas
e o dilúvio da neve desce os Andes
mas sobe um cinturão de fogo e homens.
III
Por entre a neve & o mar digo teu nome
(ó país doloroso de Neruda)
o meu canto de sede é tua fome Chile
de liberdade & paz (a noite é muda
feito a estrela chilena) o vento come
a última nuvem que no céu se gruda
qual um lábio de flor (& a branca onda
sobre o exército-azul sempre te ronda)
ó som que sai de dentro da guitarra
como uma dor sem voz (entre-paredes)
ó verde-mão de Violeta Parra
(ó tambor argentino de Mercedes
Sosa) que grito ou que silêncio agarra
teu oceano que não vem nas redes
dos pescadores que recolhem pluma
do condor destroçado pelo puma?
(o teu rosto mapuche e araucano
dissolveu o seu chumbo em lava & lágrima
ou o sangue do teu corpo igual a um cano
que era um jorro de fogo é um olho-dágua?)
um dia por semana ou um mês por ano
quem canta uma canção de Victor Jara?
(Chile que sol derreterá os gelos
para crescerem novos teus cabelos?)
que Molotov vinho doce-amargo
do val-do-inferno até Valparaiso
com empanada de pólvora em Santiago
entre balas & búzios? (que marisco
com granada na concha?) quando o estrago
do oceano-do-povo ao mar-Pacífico
será (da espuma à neve) uma bandeira
branca-vermelha-e-azul na Cordilheira?
IV
Os deuses não pouparam tua pátria
(treme o sino do mar dentro da terra
e o bananal espreme ácidas lágrimas
do corpo-verde) o vento arqueja a guelra
de peixe debatendo-se sem água
(ladran los perros que la luna encierra
en su pecho de acero y arena blanca
como a ampulheta que vazou a Atlântida)
ruge um tigre de ouro tatuado
de signos (um ctônico-elefante
que invade a Guatemala transformado
em terremoto e guerra) a patriatlante
submerge entre as patas do cavalo
das ondas (desde a praia ao horizonte)
e a terra emborca a sua curvatura
de inferno e céu (ou profundeza e altura)
foi gancho de pirata (mão-sem-mão)
que arpoou os costados da baleia
ou o guarda-chuva aberto pelo arpão
(feito um mastro na carne-azul) que hasteia
a bandeira do sangue? (o tubarão
tem máquinas na boca) e a lua-meia
do cachalote esguincha pelas costas
o fôlego do mar cortado em postas
2º.
o kukul
é um pássaro
o kukul
é uma esmeralda-viva
o kukul
é um arco-íris verde
o kukul
é um metro de cores
o kukul
é um lenço de sangue
canta
canta
kukul
(por que não cantas
para Tecúm-Uman?)
canta
canta
kukul
(por que não cantas
contra a lança
de D. Pedro Alvarado?)
o kukul
é um anjo
(Ángel Astúrias:
Aracanjo São Miguel
de sangue maia)
Leyendas de Guatemala
o Week-End
d'El Señor Presidente
y El Papa Verde
de la United Fruit
Company
oh Hombres de Maíz
al Vientro Fuerte
Audiência de los Confins
da pátria
onde a bandeira
do quetzal-kukul.