INICIAÇÃO DO CÁRCERE
RECONHECIMENTO DA CELA E DO ESPAÇO.
É A SOLITÁRIA. Mal entro e muitos ran-
gidos de metais rudes me trancam: fico
sozinho e de pé no cimento exíguo. Fede.
Preciso urgentemente de pontos cardeais.
Descubro a abertura esguia lá em cima: não
mostra nada, mas é a minha janela. E ter ja-
nela é bom. Dou os poucos passos que cabem,
são quase cinco: investigo o duro espaço vital
que vai ser meu não sei quanto tempo. Ainda
é muito cedo para me pôr questões. A porta
é verde e é bom ter um verde a meu lado.
Chego às grades e nas pontas dos pés olho
o corredor: a sentinela não fala, vai e vem,
a sentinela é móvel, não sabe nada, não diz
nada, vai e vem, metralhadora na mão. O
olhar de ferro é fingido, seu peito é jovem
demais, forrado de ignorância. Estendo-lhe
como ponte a palavra “companheiro”: um
doce brilho fugaz humaniza o seu olhar, que
perturbado retorna à dureza militar. A sen-
tinela não fala nada, a sentinela é móvel,
vai e vem. Regresso ao lado de dentro, que é
o meu: preciso ir-me acostumando ao mundo
infinito entre esses muros que mereci como
prêmio pelo amor à liberdade. No extremo,
a latrina velha é um privilégio de louça. Fede
muito e faz calor. (Nenhuma pressa de
achar de onde é que vem o fedor.) Torço a
chave na parede: da boca escura do cano
desce o jorro cristalino. É ruim, mas poderia
ser muito pior: tem janela (mas não mostra
nenhum céu), tem porta verde (cerrada) e
tem água: a vida inteira se explica na liber-
dade do banho. Depois me sento no catre: o
fedor é do colchão. Palha e pano devorados
de suor e solidão. Movo-me: perturbo a vida
e a paz de seres ligeiros e ferozes que resi-
dem nas dobras e labirintos deste universo
que fede.
NOITE DE SOLITÁRIA.
Agora vai ser a noite. Uma sombra suja
vem, penetra na cela e escondida se en-
colhe, como se feita de pêlos, e me fica
farejando num buraco do colchão. Solidão só
foi agora que deu sinal. Disfarçou-se nas pa-
redes como pôde. Esperou descer a noite para
chegar já profunda, estirar-se do meu lado,
onde calma vai cavando um buraco no meu
peito, dentro do qual se agasalha a dor
grande do meu povo. Entre pulgas e mosqui-
tos, que meu sangue se repartem, o jeito é
usar o lençol: escuro de serventias, apodreceu
resguardando humores e resíduos de muitos
que aqui dormiram antes de mim: encontrei-o
esquecido hediondo, agora o busco e enrolo
minha noite em seu negrume. Passeia em meu
pescoço um rumor que estremece: é um
rumor de barata que me encontra, me estra-
nha, não perde tempo e corre, arabesco de
aventura na palma da solidão, que se abre
escura em meu peito.
O REFRÃO E A MEMÓRIA.
Lição de cadeia fica
e
cadeia deixa mancha. Estes dois refrãos vêm
da infância, ficaram dormindo no caminho que
fiz de vida desde que os barrancos deixei.
Chegados me levam com eles —— então saio,
ai, nunca fui tão livre, atravessando os cam-
pos gerais, avanço no perfume de mariranas
maduras, as mangabas florescem, e pelo ata-
lho fofo de cajueiros chego ao igarapé mais
claro, demandando a tarde. E de repente mo-
ças vêm, carregando bacias, e batem roupas
brancas, camisas dos seus homens nos cedros
da beirada, e eu sou deslumbrado entre os
olhos que espiam do capinzal e vejo o sol
brilhar nos joelhos dourados, dos cabelos
escorrem doces brilhos: a mais morena er-
gueu-se, entrou no rio, há uma canção nas
águas, pela blusa molhada transparecem-lhe
os seios, que depois se vão embora, nunca
mais voltam, vão subindo, lá vai a moça,
nunca mais vou me esquecer, ela ganha um
desvio ao vento dos buritis que guarnecem
os muros da penitenciária, muros tristes, altos
—— mas deles uma ponte no tempo se alteia
e me traz de retorno ao mormaço da cela
e aos refrãos de cadeia.
O REFRÃO E A MANCHA.
De novo o refrão lembra que lição de ca-
deia fica e muito mais fica a mancha que
a cadeia deixa na vida do homem, nunca sai
direito e o tempo nem sempre lava: torce
a mancha de lugar e às vezes desfigura o
contorno e confunde os sinais que nunca se
apagam. A mancha vai ficar, mas não em
mim. A mancha está lá fora, imensamente à
mostra, na fronte soturna do grande carcerei-
ro, não só meu nem dos oito companheiros
de grito, nem de quantos patrícios inocentes
padecem no tormento dos cárceres. Carcerei-
ro da alegria de todo um povo que começa
a ver naquela fronte a mancha que não sai,
que não sai, mas vai ser o sinal quando
chegar o dia que vai vir, que vai vir.
OS DE OLIVA QUE VÃO.
Mas de alguma coisa fico obrigado a esta
cadeia. Principalmente a alegria de encon-
trar entre rudezas e opacidades, a marca,
transparente e indisfarçável, da ternura soli-
dária, no gesto simples de homens como qual-
quer um de nós, que só se vestem de oliva
por força de lei. Seus nomes não vão comigo,
mas sei que somos um só, mas sei que eles
vão um dia repartir conosco o pão que sem-
pre dá, quando é mais de um que come.
AMANHECE O ÚLTIMO DIA.
Já amanheci quinze vezes dentro da noite
crescendo. Hoje um toque de clarim con-
fundiu-se no meu sonho ao canto livre dos
homens que celebravam a força da terra azul
possuída pelo amor dos que trabalham. Olhos
abertos, me encontro ao sabor de uma al-
vorada que o corneteiro me impõe. Falta
muito para o dia. Mas neste reino alvorada
tem hora certa: disciplina é o principal.
Ainda é longe a claridão, ainda galopam os
cavalos de fogo: mas já é alvorada —— o cor-
neteiro é quem diz (e dizer ele diz bem).
É uma ordem, e foi dada: a aurora inteira
se enquadra no regime militar. Do qual, por
sorte, me salvo. Paisano e poeta, não me
comandam em matéria de alvoradas. Pois
acho pouca a manhã, que ainda falta e não
cabe na fundura desta cela. Mas não é só que
ainda falte. Esta manhã não tem gosto de ama-
nhecer, vem-lhe um ranço de fim de tarde
vazia. Nem cheiro tem de manhã. Não peço
o orvalho no vento, nem o capinzal molhado,
viração da manhãzinha varando a luz do
curral, que essas manhãs se esconderam nas
terras altas da infância. Nem o cheiro de
açucena que amanhece na ternura da com-
panheira dormindo. Esta manhã cheira a
mofo, a lixo velho e rescende a talos podres,
vingados. Tem gosto de água encardida, custa
a chegar, é manchada, não traz nada e cheira
mal. Mas é a manhã que eu tenho, mas é a
minha —— e é manhã. Aqui estou, seu com-
panheiro, contente de coração.
A MANHÃ MENSAGEIRA.
Vejo em teu rosto, manhã, o sinal que se
repete, simplesmente, na lição de começar
cada dia e de chegar entregando. Contigo
aprendo no escuro a trabalhar o meu dia e
descubro a advertência com que te entregas à
noite, para abrir nela o caminho de surgir
mais poderosa. És a clara mensageira da ver-
dadeira manhã que vai chegar para o povo
e redimir este chão, de cujo amor vai se
erguer o sol da revolução.