Cartilha do Povo

Raimundo Santa Helena

C A R T I L H A  D O  P O V O

 

Ninguém nasceu neste mundo

Pra sofrer e virar Santo

Deus nos fez para gozar

Mais do que derramar pranto

Mas na panela do povo

Só tem farofa de ovo

Quando almoço não janto.

 

E todo trabalhador

Ao teto vai ter direito

Um salário compatível

Pelo que faz ou foi feito

Quem lavrar terra é dono

Não haverá abandono

Para quem tiver defeito.

 

Contestação não é crime

Onde há Democracia

Só ao cidadão pertence

A Sua soberania.

No poder coercitivo

Jesus foi subversivo

Na versão da tirania.

 

Eu sou dono do meu passe

Faço arte sem patrão

Só quem tem capacidade

Deve ser Oposição

Porque lutar pelos fracos

É tatear nos buracos

Na densa escuridão.

 

Alguém disse que o povo

Tem sua memória fraca

Quem falou esta mentira

Vai gemer numa estaca

Ninguém pode progredir

Se ficar a repetir

Paca-tatu tatu-paca.

 

Do progresso brasileiro

O povão não usufrui

Embora com seu suor

É o que mais contribui

Mas num regimem que suga

O honesto que madruga

Nada que preste possui.

 

Ninguém agüenta mais

Abrangentes privações

Estrangeiros controlando

No Brasil nossas ações

Vamos revirar as normas

Decretar nossas reformas

A partir das eleições.

 

Eleger o Presidente

Deputado Senador

Igualmente no Estado

Eleger Governador

Prefeito no Município

Seguindo mesmo princípio

Eleger Vereador.

 

Queremos Democracia

Plena e Constituinte.

Não queremos o menor

Vivendo como pedinte

O BNH dos nobres

Deve se virar pros pobres

Queremos mais o seguinte:

 

Estados e municípios

Tenham mais autonomia

Tributária e política

Que não haja mordomia

Nem orgia no Poder

Que o pobre possa ter

O seu pão de cada dia.

 

Que a Lei de Segurança

Prenda ladrões-de-cartola

Sem coagir cidadãos

No trabalho ou escola

Leis de Censura Imprensa

Nesses termos ninguém pensa

Livremente sem argola.

 

Nosso povo apoiado

Na vida de mutirão

E queremos a mulher

Com mais valorização

Nosso meio ambiente

Puro como lá se sente

Nas florestas do sertão.

 

Trabalhador que recebe

Só o Mínimo Salário

Família com 7 pobres

3 cafezinhos diário

Não sobra nem um tostão

Para bisnaga de pão

Pobre vai chupar rosário.

 

O modelo econômico

Continua muito mal

Pequena média empresa

Viram lama no canal

Queremos mudar a fase

Que elas se tornem base

Da renda nacional.

 

Que haja maior respeito

Pelos grupos raciais

Também pelas minorias

Porque nós somos iguais

Um ensino democrático

Humano moderno prático

Justiça nos tribunais.

 

As multinacionais

Carregam nosso dinheiro

O desemprego empurra

O pobre pro cativeiro.

Na demissão coletiva

Povo na locomotiva

É apenas passageiro.

 

Têm gatunos de gravata

É só cutucar a toca

O Governo dá dinheiro

Pra plantarem mandioca...

Não plantam nem o farelo

E ladrão rico donzelo

Vai pra Boston tomar coca.

 

Não há creches pra criança

De quem trabalha estuda

Criminoso abastado:

A justiça fica muda

Pobre já não tem nem dente

Usa unhas como pente

Nasce morre sem ajuda.

 

O pobre faz seu barraco

Na lama pedra barranco

Rico faz prédios de luxo

Pra classe "F" de franco

Onde havia prazer:

Pipa bola mais lazer

Na grama no sol no banco.

 

Vão comprar o trem a álcool

No Canadá também trigo

Há usina nuclear

Hidreléticas eu digo

Pondo inflação pra frente

Portanto futuramente

Não devem virar jazigo.

 

Flagelados no Nordeste

Mendigando pela rua

Comem bunda de formiga

Só se vê criança nua

Descomendo no buraco

Vive Era do Macaco

O Homem conquista Lua.

 

Aqui a Democracia

Vai virando palhaçada

Nos projetos o Partido

Decreta "questão fechada"

Votar sem independência

É ter uma consciência

Vilmente violentada.

 

Todo país tem seu uso

Há conquista permanente

Que deve ser respeitada

Eleger o Presidente

Só o povo tem direito

Considero desrespeito

Votar indiretamente.

 

Dirigentes de escola

Devem ser por eleição

Pro ensino pra lavoura

Que aja mais dotação

Intermediários rua

INAMPS sem falcatrua

Classe média sem "Leão".

 

A pobre dona-de-cass

Seu companheiro família

Morar comer viajar

Comprar alguma mobília

É uma dificuldade

Que não tem prioridade

Nos Pacotes de Brasília.

 

Nenhum Governo respeita

Povão que é desunido

O Lobo vira Senhor

Do cordeiro encolhido

Quem não se junta perece

Mas quem se une merece

Um viver evoluído.

 

Nos discursos na TV

Presidente pede voto

Por causa da "Lei Falcão"

Oposição só tem foto

7 Quedas vai morrendo

Criança nasce devendo

A solução eu anoto:

 

Façamos da votação

Uma cívica peneira

Nosso povão no Governo

Vai sacudir a poeira

Da tempestade de ventos

Que nublou os fundamentos

Da Família Brasileira.    FIM

RIO, 17 de setembro de 1982.

 

 

 

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— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

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— Financiamento e realização

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