C A R T I L H A D O P O V O
Ninguém nasceu neste mundo
Pra sofrer e virar Santo
Deus nos fez para gozar
Mais do que derramar pranto
Mas na panela do povo
Só tem farofa de ovo
Quando almoço não janto.
E todo trabalhador
Ao teto vai ter direito
Um salário compatível
Pelo que faz ou foi feito
Quem lavrar terra é dono
Não haverá abandono
Para quem tiver defeito.
Contestação não é crime
Onde há Democracia
Só ao cidadão pertence
A Sua soberania.
No poder coercitivo
Jesus foi subversivo
Na versão da tirania.
Eu sou dono do meu passe
Faço arte sem patrão
Só quem tem capacidade
Deve ser Oposição
Porque lutar pelos fracos
É tatear nos buracos
Na densa escuridão.
Alguém disse que o povo
Tem sua memória fraca
Quem falou esta mentira
Vai gemer numa estaca
Ninguém pode progredir
Se ficar a repetir
Paca-tatu tatu-paca.
Do progresso brasileiro
O povão não usufrui
Embora com seu suor
É o que mais contribui
Mas num regimem que suga
O honesto que madruga
Nada que preste possui.
Ninguém agüenta mais
Abrangentes privações
Estrangeiros controlando
No Brasil nossas ações
Vamos revirar as normas
Decretar nossas reformas
A partir das eleições.
Eleger o Presidente
Deputado Senador
Igualmente no Estado
Eleger Governador
Prefeito no Município
Seguindo mesmo princípio
Eleger Vereador.
Queremos Democracia
Plena e Constituinte.
Não queremos o menor
Vivendo como pedinte
O BNH dos nobres
Deve se virar pros pobres
Queremos mais o seguinte:
Estados e municípios
Tenham mais autonomia
Tributária e política
Que não haja mordomia
Nem orgia no Poder
Que o pobre possa ter
O seu pão de cada dia.
Que a Lei de Segurança
Prenda ladrões-de-cartola
Sem coagir cidadãos
No trabalho ou escola
Leis de Censura Imprensa
Nesses termos ninguém pensa
Livremente sem argola.
Nosso povo apoiado
Na vida de mutirão
E queremos a mulher
Com mais valorização
Nosso meio ambiente
Puro como lá se sente
Nas florestas do sertão.
Trabalhador que recebe
Só o Mínimo Salário
Família com 7 pobres
3 cafezinhos diário
Não sobra nem um tostão
Para bisnaga de pão
Pobre vai chupar rosário.
O modelo econômico
Continua muito mal
Pequena média empresa
Viram lama no canal
Queremos mudar a fase
Que elas se tornem base
Da renda nacional.
Que haja maior respeito
Pelos grupos raciais
Também pelas minorias
Porque nós somos iguais
Um ensino democrático
Humano moderno prático
Justiça nos tribunais.
As multinacionais
Carregam nosso dinheiro
O desemprego empurra
O pobre pro cativeiro.
Na demissão coletiva
Povo na locomotiva
É apenas passageiro.
Têm gatunos de gravata
É só cutucar a toca
O Governo dá dinheiro
Pra plantarem mandioca...
Não plantam nem o farelo
E ladrão rico donzelo
Vai pra Boston tomar coca.
Não há creches pra criança
De quem trabalha estuda
Criminoso abastado:
A justiça fica muda
Pobre já não tem nem dente
Usa unhas como pente
Nasce morre sem ajuda.
O pobre faz seu barraco
Na lama pedra barranco
Rico faz prédios de luxo
Pra classe "F" de franco
Onde havia prazer:
Pipa bola mais lazer
Na grama no sol no banco.
Vão comprar o trem a álcool
No Canadá também trigo
Há usina nuclear
Hidreléticas eu digo
Pondo inflação pra frente
Portanto futuramente
Não devem virar jazigo.
Flagelados no Nordeste
Mendigando pela rua
Comem bunda de formiga
Só se vê criança nua
Descomendo no buraco
Vive Era do Macaco
O Homem conquista Lua.
Aqui a Democracia
Vai virando palhaçada
Nos projetos o Partido
Decreta "questão fechada"
Votar sem independência
É ter uma consciência
Vilmente violentada.
Todo país tem seu uso
Há conquista permanente
Que deve ser respeitada
Eleger o Presidente
Só o povo tem direito
Considero desrespeito
Votar indiretamente.
Dirigentes de escola
Devem ser por eleição
Pro ensino pra lavoura
Que aja mais dotação
Intermediários rua
INAMPS sem falcatrua
Classe média sem "Leão".
A pobre dona-de-cass
Seu companheiro família
Morar comer viajar
Comprar alguma mobília
É uma dificuldade
Que não tem prioridade
Nos Pacotes de Brasília.
Nenhum Governo respeita
Povão que é desunido
O Lobo vira Senhor
Do cordeiro encolhido
Quem não se junta perece
Mas quem se une merece
Um viver evoluído.
Nos discursos na TV
Presidente pede voto
Por causa da "Lei Falcão"
Oposição só tem foto
7 Quedas vai morrendo
Criança nasce devendo
A solução eu anoto:
Façamos da votação
Uma cívica peneira
Nosso povão no Governo
Vai sacudir a poeira
Da tempestade de ventos
Que nublou os fundamentos
Da Família Brasileira. FIM
RIO, 17 de setembro de 1982.
Comentário do pesquisador
https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=CordelFCRB&id=23210006916451&pagfis=39246