DIA
No dia em que esse
cadeado trincar no ar
e trancar o vento,
estamos no asfalto.
No dia em que essa
sirene fremir para os moucos
e desafinar,
estamos andando.
No dia em que esse
carcereiro pegar suas ordens
e tropeçar,
estamos rindo.
No dia em que essa
noite clarear estrelada
e friorenta,
estamos chegando.
No dia em que esse
teto rebaixar, com janelas
e vizinhos,
estamos em casa.
No dia em que essa
visita continuar por todos os dias
e todas as horas,
estamos em festa.
No dia em que essa
mesa ficar encardida
dos pingos de café,
a poeira amontoar
sem faxina,
o pão velho endurecer
e durar,
os filhos exercitam a presença com seus pais
os pais exercitam a presença com seus filhos.
Corremos todos para
a mesma mesa clareira de sol,
mesmo que chova,
sentimos todos
o mesmo calor,
mesmo que inverno,
cantamos todos
a mesma canção,
mesmo com lágrimas.
Companheiros desaparecidos,
rostos não esquecidos,
na linha circular indefinida
vozes ressoam.
Companheiros mortos
deixam fincados
os marcos da luta,
nenhum morreu totalmente,
seus nomes renascem com nossos filhos.
Nenhum morreu
por conta própria,
foi na tortura
que te transformaram
em vice-morto
de futuro morto.
Companheiros exilados
saudades,
certeza do retorno.
Companheiros banidos,
varridos de nossa terra,
a maior espera.
Dia de cadeados trincados – Anistia!
Dia de certezas no horizonte – Anistia!
Dia de flores novas nos cemitérios – Anistia!
Dia de emoções nos reencontros – Anistia!
Dia de liberdade construída – Anistia!
Dia de Anistia! – Anistia! – Anistia!
Comentário do pesquisador
Link para acesso ao poema: http://www.docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=DocBNM&pesq=presos+pol%C3%ADticos&hf=memorialanistia.org.br&pagfis=69570