CORPOS EM DELITO
Os condenados perfilam-se
com os corpos mutilados
diante da ira do algoz,
ao exame das chagas
que trazem abertas ao vento.
Juntam-se queimaduras
por todas as partes do corpo,
equimoses que se espalham
pelo abdome dilacerado,
unhas arrancadas,
escoriações em sangue,
cicatrizes irregulares
deixando tatuagens
na região glútea,
pupilas perfuradas
por instrumentos pontiagudos,
órgãos genitais deformados
com violência
e sadismo,
bolsas escrotais povoadas
de lesões
e edemas,
fissuras diversas
na parede do ânus,
crânios afundados
por torniquetes de espinhos,
tíbias tortas à mostra
como a brancura do leite,
dedos pisoteados
por coturnos ao chão,
marcas de caninos
nas costas,
nos ombros,
nas pernas,
amontoam-se no Instituto
Ilegal para mais humilhação.
Os condenados, com seus espectros,
entram em fila pelos corredores
ao exame de delito.
Cada um com uma sina,
cada um com uma história,
cada um com uma desgraça
perguntando-se nos ouvidos:
— O que mais podem nos fazer?
— Que provação é esta provação?
— Que sofrimento é este sofrimento?
— Que desgraça é esta desgraça?
Ali jazem sem resposta
aqueles de quem a desonra
apoderou-se da vida.
São cidadãos da Pátria,
são filhos da Nação,
meninos que nem ao menos
viveram os primeiros sonhos.
Os corpos nus exibem
as costelas fraturadas,
hematomas variados,
perônios destroçados,
ligamentos rompidos,
pernas gangrenadas,
arcadas esmagadas,
almas de peneira,
para a satisfação do regime.
Os que acreditam que ainda vivem
arrastam-se pelos corredores
urinando sangue pisado,
com lesões na coluna,
vomitando as entranhas
e tateando o chão
como animais que rastejam.
— Vejam o que fizeram,
assassinos,
assassinos,
assassinos!...
Os condenados sem culpa
trazem os corpos de chagas
para a certificação de que ainda
podem resistir às atrocidades.
São mulheres alucinadas
que mostram o bico dos seios
deformado por alicates,
gritam,
gritam,
gritam,
loucas pelos corredores,
que lhes enfiaram baratas,
lhes corroem as entranhas,
enquanto uns velhos cancerosos
cospem pelos cantos,
cospem pelos anos,
cospem pelos ares,
placas de catarro
diante dos que passam
e pedem aos céus de chumbo
murmurando infortúnio:
— Somos corpos em delito!
— Somos corpos em delito!
— Somos corpos em delito!
Quando os condenados perfilam-se
diante dos assassinos,
poetas escrevem canções
que nunca serão cantadas:
poetas marginais,
canções proscritas,
testemunhos de dor,
sem remetente,
sem resposta,
sem destino,
aos que escondem-se na clandestinidade.
Quando os corpos em delito
aguardam o Atestado de Óbito
uns poetas choram,
choram,
choram,
choram
as dores que não são suas.
Rio de Janeiro, 28.3.73