Coração americano

Renata Pallottini

CORAÇÃO AMERICANO

 

Aos meus companheiros de sala

  Almino Affonso

  e Plinio Arruda Sampaio

 

1

 

TOMBOU sobre as cúpulas

sem forma

aos poucos penetrando com suas cinzas

as pedras e os beirais e as próprias pombas

foi tomando de úmido

o que era só frio

pois pelo alto chegava

e quase de repente os vitrais embaçava

foi colhendo pessoas

pálidas e com olhos de fadiga

e as foi cercando com seus braços grossos

que se diluíam e de novo condensavam

armas daninhas de nenhuma identidade

mas incansáveis

e fomos vendo que ninguém nos salva

fomos sentindo que este peso é muito

que não somos capazes

Senhor faz de nós qualquer coisa

alguma coisa que seja tua para sempre

que te pertença

qualquer coisa menos isto que agora calados somos:

gente com medo.

 

2

 

Estamos todos cansados

É de tarde e o céu escuro cai

o chão de asfalto pesa

temos amigos

é como se pudéssemos falar

e como se pudéssemos sorrir

Mas já não sabemos nada

Um grande dedo aponta direção desconhecida

Estamos perdidos

e muito cansados

Os amigos consultam-se com olhares

as palavras são curtas e a angústia

muita

Nem a música pode o que podia

Vemos os quadros azuis e por vezes o mármore

olhamos o campo verde emoldurando cinzas

estamos aqui calados olhando e tristes

e duramente e infinitamente

cansados

Quem há de delatar

quem há de resistir por forte e quem

sucumbirá depois de algumas lágrimas?

Quem será traidor quem o herói

a quem havemos de encontrar um dia

marcado a ouro na rua?

Quem está degradado em seu ofício

quem desterrado e puro

a quem enviaremos nossas cartas cifradas?

Para quem os cifrões?

 

3

 

Todos partiram:

os que liam

e os que escreviam.

Os que sorriam

e os que calculavam.

Os que brilhavam

e os que sofriam.

Todos foram de partida.

Mudou-se a vida.

Hoje estão vivos

os que se calam.

Os que concordam que estão concordes.

Quando se acorda

mandam dormir

quem nos acorda.

Partiram os que cantavam

e os que cantando despertavam.

Partiram os que falavam

e os que falando explicavam.

Partiram os que lidavam

com brinquedos de palavras;

e os que brincando ensinavam.

Partiram. E no entanto

havendo gente de menos

o mundo ficou mais apertado.

 

4

 

Ficção científica.

Faz um livro de ficção científica

e esquece.

Telenovela.

Escreve logo uma telenovela.

E esquece.

Introspecção.

Faz a introspecção e a masturbação.

E esquece.

Resistência carnavalesca.

Entra no campeonato

bebe e esgota o peito

canta e seca o hálito

e cai na rua como um trapo.

E esquece.

 

5

 

Aos poucos o homem fraqueja

e lentamente agoniza

antes da sepultura.

Seu epitáfio é composto,

longamente meditado

muito antes de feito o túmulo.

Outros homens, como a estátua

que ornamentará seu leito,

fazem sua morte.

E muito antes,

como a fizeram, precisos,

sua vida determinaram.

E o homem adormece

sem nunca haver suspeitado,

sem haver lutado nunca.

 

6 (VALLEGRANDE)

 

Nas verdes colinas há um silêncio de morte.

Entre árvores, pássaros, moradas

um silêncio que veio se acomoda.

Surgem as fontes de água,

caminhos de homens sós, passos, picadas,

entre pássaros, fontes, emboscadas.

Nas montanhas mais verdes a morte está plantada

e o céu que ali se estende não se estende por nada.

Se alguém ali morreu, pouco importa quem seja:

foi um homem quem morreu com seus olhos de estrelas,

sua barba e seus cabelos, sua boca e seus desejos.

Um homem morto apenas e não morto por nada

entre árvores, pássaros, fontes, emboscadas,

a caminho das últimas, indistintas moradas.

 

 

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Coordenação

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Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

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Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

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