CONDIÇÃO DE JÓ
Onde a raiz
da palavra raiva
o centro da cegueira
do ódio, da ira
o mal da malícia
da maldade
da maledicência?
A mola que move o punho
o soco
a mão que agride, fere
ferra.
O dente que morde
a força que retesa o arco
e dispara a flexa contra
o coração do homem?
É um tempo de ciladas
de falsos testemunhos.
As palavras não atam
não unem, não ungem, não curam
não cingem.
São facas aguçadas
pedras ponteagudas
jogadas no rosto
do pretenso inimigo.
Ninguém é poupado
do assassinato diário.
O punhal, o tiro, o veneno
o rancor
o cacetete, a droga
o gás lacrimogêneo
as metralhas
são faces escuras
do extermínio.
A morte exata, ascética
é enviada em cartas-bombas.
Por todos os lados
armam-se laços, lanças
lama, estilhaços
cercas, cercos
seqüestros.
Onde a raiz da injustiça
da impiedade, da traição
da aleivosia, dos algozes
deste dia?
A hora é horizontal
como um réptil. Escura
como noite invernosa.
Traiçoeira como areia movediça.
Como Jó
clamamos pela aurora.