COMÍCIO
Tem horas que penso, continuamos na noite
em que Getúlio baleou o peito do pijama.
Baratas num palácio com corredores
que dão para uma dívida, um velório,
um muro com guaritas e um Gregório
com a boca da arma eternamente
escancarada pra nós.
Penso que estamos
eternamente num bar bebendo brahma,
eternamente espremendo pedras e limões,
eternamente montando cabines eleitorais
como privadas provisórias no quintal.
Mas estamos expostos ao sol
e continuamos. Haveremos de fazer
do sangue, chouriço. No fogo
o milho virará pipoca, e a boca,
a mesma boca que cala, morderá
com os dentes que restarem na boca.
E numa noite igual à primeira das noites
faremos um comício a céu aberto
como teatro com telhado de vidro
e com tanta vontade de falar de tudo
depois de tanto silêncio cascudo
que talvez acabemos todos mudos
como gente que olha fogos de artifício
e engole saliva, sustos e pipocas,
cada um escutando o coração de todos
como o seu próprio coração na noite
com estrelas que ainda piscarão
de espanto e descrença, porque dizem
que a luz das estrelas chega atrasada
e elas estarão ainda atordoadas
quando tivermos conquistado o sol,
a terra, os tratores, livros e represas.