CIRANDA
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.”
Carlos Drummond de Andrade
Choro por Maria,
que chora por José,
que chora por Pedro,
que leva flores a Antônia,
que reza por Dolores,
que procura por Alberto,
que escreve a Agenor,
que suplica por Rita,
que indaga por Ricardo,
que celebra missa por Conceição,
que padece por Orlando,
que sente saudades de Virgulino,
que sonha com Odete,
que lembra de Dalila,
que pergunta por Dagmar,
que implora por Juliano,
que se queixa por Juvenal,
que soluça por Helena,
que chama por Elizabete,
que lastima por Carlos,
que paga promessa por Francisco,
que lamenta por Benedito,
que acende velas para Antônia,
que roga por Frederico,
que pede ajuda a João,
que olha a fotografia de Armando,
que sente falta de Eduardo,
que leva cigarros para Jerônimo,
que quer saber notícias de Nair,
que sofre por Lurdes,
que busca informações sobre Assis,
que manda recado a Rosália,
que espera encontrar Leandro,
que sente falta de Garcia,
que faz penitência por Madalena,
que insiste em encontrar Sabino,
que ouviu os gritos de Mário,
que tentou defender Antônio,
que viu o sangue de Ademar,
que se desespera por Stênio,
que se matou por Luzia,
que era irmã de Vera,
que tinha um retrato de Afrânio,
que sabia do endereço de Manoel,
que marcou encontro com Antenor,
que guardou as cartas de Rogério,
que espera por Dalila,
que ainda chora por Roberto,
que levou notícias a Walter,
que mandou procurar pelo cadáver de Sebastião,
que vive na província distante
e responde como se fosse Mateus:
— Por favor, escondam meu nome
da Lista dos Desaparecidos.
Rio de Janeiro, 11.5.73