Canto do ser humano redivivo

Loreta Valadares

Canto do ser humano redivivo

 

PRÓLOGO

 

Podem destruir cidades

e fabricar homens mecânicos.

Eu, por mim, semearei os campos

e viverei ao ar, livre

tomarei banho no regato

e rirei às gargalhadas

das aves metálicas

que sobrevoarem o meu céu.

 

O caminho que percorro

é cheio de buracos abertos

como órbitas sem olhos.

Encontro cidades abandonadas

e homens mortos espalhados.

Esqueceram de apertar o botão

da máquina de empilhar mortos

mas podem ficar descansados —

eu, por mim, enterrarei os mortos

com minhas próprias mãos

cavarei a terra com as unhas

e, de sangue, farei nascer rosas vermelhas

para cobrir as sepulturas.

 

 

I - O MEDO

 

asfixiante.

Sinto o pescoço apertado

por garras invisíveis

e pela cidade abandonada

vejo mãos passeando aos pares

em corpos inexistentes.

Contaram uma estória

interessante:

um grande monstro

invadiu a cidade

e devorou os homens que encontrou

Só deixou as mãos

inúteis, vazias...

 

 

II - O GRITO

 

desesperado.

Ouço minha voz

repercutindo ao longe

como um tímpano quebrado.

Ouço minha voz

repetindo o mesmo som

angustiado

Eu não sou eu

sou todos os sons

inaudíveis

que notas falsas

não conseguem vibrar

Eu sou o grito rebelde

que o medo não pode calar,

Liberdade!

meu grito gerado no medo

rompe entranhas doridas

e vem à luz ensanguentado

anunciando a vida.

 

 

III - A LUTA

 

conquistada.

Trago meu peito aberto

que mãos impuras

não profanaram

Em meus olhos

conduzo a chama

inapagável da esperança.

Rompo meu caminho

a sangue

e a pedradas

e de lágrimas não choradas

marco meu rosto

como a ferro em brasa.

Eu não sou eu

sou o caminho que conquisto

 

 

IV - A ESPERANÇA

 

renascida.

Do alto da montanha

vejo mil luzes vermelhas

tremulando no espaço.

São tochas levantadas

acima das cabeças anônimas

de mil homens não identificados.

Eu não sou eu

sou a cidade que construo

 

 

EPÍLOGO

 

Semearei os campos.

Enterrarei cadáveres.

O meu caminho é longo,

minha vida é pouca

Mas eu não sou eu,

sou o homem/mulher

redivivos

anunciando um dia que já veio.

E, pedra sobre pedra

eu te construirei, oh! liberdade

nem que seja tarde

nem que seja morta

 

dezembro, 1966

 

 

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados