Vão passando os dois
De cabeça baixa,
E vão caminhando
Pela rua triste
Nessa tarde morta
Nesse mês de Abril;
Vão de braços dados
Pela tarde escura
Como escuro véu.
Vão assim sozinhos
Carregando um luto
Entre a sombra e o céu.
Onde estão os outros
Para que eles vivam?
Onde estão as asas?
Para que eles voem?
Nesse fim de Abril,
Nesse Abril sem fim,
Nesse fim sem rua.
Por que vão passando
De cabeça baixa?
– Como vão sem pressa!
Pela rua escura.
Por que vão assim
Sem andar depressa,
Sem deixar saudades
Nessa tarde triste,
Nessa rua escura.
De onde vêm os dois?
De que longe vêm?
Por que nada dizem
Nessa caminhada,
De cabeça baixa
Como a olhar o chão
Pela vez primeira.
De onde vêm os dois?
De um país noturno?
De que noite amarga
De que sono antigo
Despertaram os dois?
E vão caminhando
Nessa tarde triste
Desse mês de Abril.
Nessa tarde morta
Ela vem trazendo
Um olhar perdido;
Do seu lábio sai
– Incerto queixume
Um simples gemido.
– Ele sem ouvi-la
Sem ouvi-la ou vê-la
Sem também falar
Só lhe tem palavras
Que são puros gestos
De consolação;
Nessa tarde longa
Que não tem mais fim,
Nessa tarde longa
Desse mês de Abril.
Ela traz no rosto
A velha pergunta
Sem poder dizer-lhe
– Ele que resposta
Poderá lhe dar?
Para onde é que vão?
Se são dois desejos
– Desolados, tristes
E que satisfeitos
Não serão jamais
Para onde é que vão?
Se são dois desenhos
De cabeça baixa,
Se são duas sombras,
Desenhadas, frias
Percorrendo a rua.
Ela vai levando
Uma certa angústia
– Singular vertigem
De uma só tristeza
Nessa longa rua
Nessa tarde morta.
Dele a força livre
Só no rosto vive
No seu rosto oculto
Na cinza da tarde
Desse mês de Abril.
Para onde é que vão?
Quando são dois seres
Que de tão vazios
Não têm mais valor.
Como roupas velhas;
– Tristes agasalhos
Quando são dois seres
Esperando alguém
Que ainda possam usá-los.
Seres enlaçados
Como um só que fosse,
De cabeça baixa
Percorrendo a rua
Para onde é que vão?
Se perderam os dois
Todos seus limites;
E por perto deles
Ninguém mais virá
Nessa tarde longa
Nesse fim de Abril.
Depois deles mesmos
Ninguém mais virá
Ninguém mais, ninguém
Poderá nascer,
Poderá seguir
Pela rua longa.
Para onde é que vão
Pela rua triste?
Para onde é que vão?
Para o fim da tarde?
– Com certeza vão
Para o fim de tudo
Para o fim de Abril
– Com certeza vão
Mais distante ainda;
...................
Para o fim do Mundo!
...................
Muito além de Abril.