Canção para um fim de abril

Joaquim Cardozo

Vão passando os dois

De cabeça baixa,

E vão caminhando

Pela rua triste

Nessa tarde morta

Nesse mês de Abril;

Vão de braços dados

Pela tarde escura

Como escuro véu.

Vão assim sozinhos

Carregando um luto

Entre a sombra e o céu.

 

Onde estão os outros

Para que eles vivam?

Onde estão as asas?

Para que eles voem?

Nesse fim de Abril,

Nesse Abril sem fim,

Nesse fim sem rua.

 

Por que vão passando

De cabeça baixa?

– Como vão sem pressa!

Pela rua escura.

Por que vão assim

Sem andar depressa,

Sem deixar saudades

Nessa tarde triste,

Nessa rua escura.

 

De onde vêm os dois?

De que longe vêm?

Por que nada dizem

Nessa caminhada,

De cabeça baixa

Como a olhar o chão

Pela vez primeira.

 

De onde vêm os dois?

De um país noturno?

De que noite amarga

De que sono antigo

Despertaram os dois?

E vão caminhando

Nessa tarde triste

Desse mês de Abril.

 

Nessa tarde morta

Ela vem trazendo

Um olhar perdido;

Do seu lábio sai

– Incerto queixume

Um simples gemido.

– Ele sem ouvi-la

Sem ouvi-la ou vê-la

Sem também falar

Só lhe tem palavras

Que são puros gestos

De consolação;

 

Nessa tarde longa

Que não tem mais fim,

Nessa tarde longa

Desse mês de Abril.

Ela traz no rosto

A velha pergunta

Sem poder dizer-lhe

– Ele que resposta

Poderá lhe dar?

 

Para onde é que vão?

Se são dois desejos

– Desolados, tristes

E que satisfeitos

Não serão jamais

Para onde é que vão?

Se são dois desenhos

De cabeça baixa,

Se são duas sombras,

Desenhadas, frias

Percorrendo a rua.

 

Ela vai levando

Uma certa angústia

– Singular vertigem

De uma só tristeza

Nessa longa rua

Nessa tarde morta.

 

Dele a força livre

Só no rosto vive

No seu rosto oculto

Na cinza da tarde

Desse mês de Abril.

 

Para onde é que vão?

Quando são dois seres

Que de tão vazios

Não têm mais valor.

Como roupas velhas;

– Tristes agasalhos

Quando são dois seres

Esperando alguém

Que ainda possam usá-los.

Seres enlaçados

Como um só que fosse,

De cabeça baixa

Percorrendo a rua

 

Para onde é que vão?

Se perderam os dois

Todos seus limites;

E por perto deles

Ninguém mais virá

Nessa tarde longa

Nesse fim de Abril.

Depois deles mesmos

Ninguém mais virá

Ninguém mais, ninguém

Poderá nascer,

Poderá seguir

Pela rua longa.

 

Para onde é que vão

Pela rua triste?

Para onde é que vão?

Para o fim da tarde?

 

– Com certeza vão

Para o fim de tudo

Para o fim de Abril

– Com certeza vão

Mais distante ainda;

...................

Para o fim do Mundo!

...................

Muito além de Abril.

 

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