Canção da dor do poeta

Maciel de Aguiar

CANÇÃO DA DOR DO POETA

 

 

 

O poeta canta a dor 

do povo
nas ruas,
nas praças.
olhando as vitrines,

descalço,
com fome,
com frio,

com medo
da morte.
O poeta canta a dor 

do velho, 

do moço, 

do padre, 

da freira, 

da louca, 

da mãe
que reza
com seu terço de contas 

de madrepérolas opacas. 

O poeta canta a dor
do exilado,
do banido,
do bandido,
do falido
que joga
na loteria 

na esperança sem fim 

de um dia poder voltar 

à casa paterna ao longe. 

O poeta canta a dor
da cidade
sitiada, 

violentada,
vigiada
sob a mira
do soldado
e sua ira assassina, 

que espreita 

em todos os esconsos. 

O poeta canta a dor

do mendigo,
do desvalido,
do condenado,
do aleijão,
do suicida
que espera aflito
pela hora finda
para atentar
contra o próprio peito. 

O poeta canta a dor 

dos procurados
pelos crimes
hediondos
de amar,
amar,
amar,
amar
a Pátria que lhe deu 

o direito à cidadania.
O poeta canta a dor
dos que são humilhados,
dos banidos,
dos torturados,
dos violentados,
diante dos filhos,
frente os netos,
perante os pais,
aos olhos dos amigos,
na mais execrável provação. 

O poeta canta a dor
que habita os cárceres,
com as gentes
possuídas
pela desgraça,
pelo medo,
pelo tédio,
pela infâmia,
pela tirania
deste tempo de morrer.

O poeta canta a dor

dos abraçados à própria sina,

que imploram nos tribunais

pelo direito de defesa,
pelo direito de viver
e na ânsia desesperada
ajoelham-se frente o carrasco
e oferecem o sabugo das unhas,
na esperança de continuar
acreditando que ainda estão vivos. 

O poeta canta a dor
dos que perderam os testículos,
os que conversam com os cadáveres, 

os que pedem um tiro letal,
os que vomitam pedaços
das entranhas em sangue
pisoteadas pelos coturnos,
dos que andam com as tíbias 

expostas pelas cidades
que cantam canções ao sesquicentenário

O poeta canta a dor
das almas aflitas,
das mães delirantes,
das cabeças afundadas
por torniquetes que atormentam
os que apedrejam
as vidraças dos palácios
sobre os ombros carcomidos
dos cidadãos do mundo.
Quando os tiranos cantam glórias, 

o poeta canta a dor
que não é inteiramente sua. 

O poeta canta a dor
que carrega no peito
em glória ilusória.
O poeta encanta a dor…

 

 

 

                     Rio de Janeiro, 10.8.73

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