Boato da primavera

Carlos Drummond de Andrade

BOATO DA PRIMAVERA

 

 

 

 

Chegou a primavera? Que me contas!

Não reparei. Pois afinal de contas

nem uma flor a mais no meu jardim,

que aliás não existe, mas enfim

essa ideia de flor é tão teimosa

que no asfalto costuma abrir a rosa

e põe na cuca menos jardinília

um jasmineiro verso de Cecília.

Como sabes, então, que ela está aí?

Foi notícia que trouxe um colibri

ou saiu em manchete no jornal?

Que boato mais bacana, mais genial,

esse da primavera! Então eu topo,

e no verso e na prosa eis que galopo,

saio gritando a todos: Venham ver

a alma de tudo, verde, florescer!

Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.

Na hora de mentir, meu são Genaro,

é preferível a mentira boa,

que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,

e cria uma verdade provisória,

macia, mansa, meiga, meritória.

Olha tudo mudado: o passarinho

na careca do velho faz seu ninho.

O velho vira moço, e na paquera

ele próprio é sinal de primavera.

Como beijam os brotos mais gostoso

ao pé do monumento de Barroso!

E todos se namoram. Tudo é amor

no Méier e na rua do Ouvidor,

no Country, no boteco, Lapa e Urca,

à moda veneziana e à moda turca.

Os hippies, os quadrados, os reaças,

os festivos de esquerda, os boas-praças,

o mau-caráter (bom, neste setembro),

e tanta gente mais que nem me lembro,

saem de primavera, e a vida é prímula

a tecnicolizar de cada rímula.

(Achaste a rima rica? Bem mais rico

é quem possui de doido-em-flor um tico.)

Já se entendem contrários, já se anula

o que antes era ódio na medula.

O gato beija o rato; o elefante

dança fora do circo, e é mais galante

entre homens e bichos e mulheres

que indagam positivos malmequeres.

É prima, é primavera. Pelo espaço,

o tempo nos vai dando aquele abraço.

E aqui termino, que termina o fato

surgido, azul, da terra do boato.

 

24/09/1969

 

 

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