As paredes que ouvem

Maciel de Aguiar

AS PAREDES QUE OUVEM

 

 

As paredes, como túmulos,

ouvem os gritos dos mortos

abafados em câmaras.

São vozes dos miseráveis

que chamam por todos os deuses,

implorando aos carrascos

por uma injeção letal.

As paredes dos cárceres

fecham-se em alvenaria,

tijolo sobre tijolo,

cimento,

ferro

e grades

que cercam

e abafam

os que tentam encontrar

uma saída impossível.

As mãos tatuam com sangue

mensagens aos que virão:

versos de dor aos perdidos

das clausuras deste tempo;

cartas sem endereço;

denúncias de sofrimentos

e pedidos de socorro,

enquanto as paredes guardam

segredos dos mortos sem nome.

Os clamores do inferno

sobem pelos cantos em morbidez,

onde os corpos esvaídos

procuram proteger-se

dos atos dos insanos

que mandam soletrar em dor

os que conversam assustados

com os próprios fantasmas.

As paredes testemunham

a efêmera bravura de uns

e a solidão enlouquecedora de outros,

moribundos que ainda encontram

forças para fugir dos assassinos.

Guerreiros abraçados à causa

gritam que recomeçariam tudo

se lhes fosse permitido.

Meninos que perderam os testículos

chutados pelos coturnos

investem contra os algozes.

Mulheres loucas gritam

que tirem as ratazanas

de seu sexo em brasa.

Poetas declamam versos

em louvor à Liberdade:

provação

e melancolia.

As paredes guardam segredos

dos que dilatam as veias

ante à tortura brutal,

que arranca as unhas

dos que resistem aos torniquetes

que afundam os crânios,

dos que são levados ao suplício

diante da ameaça

permanente da asfixia,

dos que assinam a rendição

com as mãos descarnadas,

dos que confessam os crimes

que nunca cometeram,

dos que vomitam as entranhas,

neste Estado de horror.

As paredes protegem em cumplicidade

o corpo dos desfalecidos.

Nunca se saberá da verdade,

nunca se imaginará o que se passou,

não haverá testemunhas

contra a versão oficial,

mas as paredes ficam

impregnadas de marcas:

dedos que escrevem

esvaídos em sangue

a versão que jamais

se aprenderá nas escolas.

As paredes ouvem o lamento

desde os séculos de escravidão:

gentes levadas ao suplício,

heróis condenados à forca,

meninos que enfrentam o destino,

mártires que encontram a desgraça,

venturosos procurados como facínoras,

olhos que nunca mais viram

a luz do amanhecer

e debruçaram as pálpebras

sob a escuridão das trevas.

As paredes dos cárceres

ouvem atônitas a tudo

e calam-se para sempre...

 

 

                     Rio de Janeiro, 17.3.73

 

 

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