AS PAREDES QUE OUVEM
As paredes, como túmulos,
ouvem os gritos dos mortos
abafados em câmaras.
São vozes dos miseráveis
que chamam por todos os deuses,
implorando aos carrascos
por uma injeção letal.
As paredes dos cárceres
fecham-se em alvenaria,
tijolo sobre tijolo,
cimento,
ferro
e grades
que cercam
e abafam
os que tentam encontrar
uma saída impossível.
As mãos tatuam com sangue
mensagens aos que virão:
versos de dor aos perdidos
das clausuras deste tempo;
cartas sem endereço;
denúncias de sofrimentos
e pedidos de socorro,
enquanto as paredes guardam
segredos dos mortos sem nome.
Os clamores do inferno
sobem pelos cantos em morbidez,
onde os corpos esvaídos
procuram proteger-se
dos atos dos insanos
que mandam soletrar em dor
os que conversam assustados
com os próprios fantasmas.
As paredes testemunham
a efêmera bravura de uns
e a solidão enlouquecedora de outros,
moribundos que ainda encontram
forças para fugir dos assassinos.
Guerreiros abraçados à causa
gritam que recomeçariam tudo
se lhes fosse permitido.
Meninos que perderam os testículos
chutados pelos coturnos
investem contra os algozes.
Mulheres loucas gritam
que tirem as ratazanas
de seu sexo em brasa.
Poetas declamam versos
em louvor à Liberdade:
provação
e melancolia.
As paredes guardam segredos
dos que dilatam as veias
ante à tortura brutal,
que arranca as unhas
dos que resistem aos torniquetes
que afundam os crânios,
dos que são levados ao suplício
diante da ameaça
permanente da asfixia,
dos que assinam a rendição
com as mãos descarnadas,
dos que confessam os crimes
que nunca cometeram,
dos que vomitam as entranhas,
neste Estado de horror.
As paredes protegem em cumplicidade
o corpo dos desfalecidos.
Nunca se saberá da verdade,
nunca se imaginará o que se passou,
não haverá testemunhas
contra a versão oficial,
mas as paredes ficam
impregnadas de marcas:
dedos que escrevem
esvaídos em sangue
a versão que jamais
se aprenderá nas escolas.
As paredes ouvem o lamento
desde os séculos de escravidão:
gentes levadas ao suplício,
heróis condenados à forca,
meninos que enfrentam o destino,
mártires que encontram a desgraça,
venturosos procurados como facínoras,
olhos que nunca mais viram
a luz do amanhecer
e debruçaram as pálpebras
sob a escuridão das trevas.
As paredes dos cárceres
ouvem atônitas a tudo
e calam-se para sempre...
Rio de Janeiro, 17.3.73