As mãos que escrevem

Maciel de Aguiar

AS MÃOS QUE ESCREVEM

 

 

Nos muros dos cemitérios,
nos monumentos aos tiranos, 

na base do obelisco,
nas paredes das fábricas, 

nas carteiras das escolas,
nos bancos da praça, 

as mãos em desobediência
escrevem,
escrevem,
escrevem,
como uma necessidade orgânica, 

antes que sejam decepadas. 

Meninos manetas perambulam
pelas ruas,
pelos becos,
pelas praças,
procurando a caligrafia
apagada pela Polícia Política Federal.
Demãos cobrem de cal
as palavras de rebeldia
escritas na ponta dos pés,
sobre os ombros dos companheiros,
pisando nas latas de lixo
e nos caixotes desengonçados. 

Latas flutuam no ar
na penumbra da noite,
desenhando no mármore branco,
na alvenaria disforme,
nos tapumes,
na madeira,
no concreto,
no vidro,
a insatisfação vigente. 

Cada qual com uma letra 

de forma,
manuscrita, 

apressada, 

disforme,
expressando a revolta 

deste tempo de barbárie. 

Mãos rudes,
mãos negras,
mãos brancas,
mãos trêmulas,
que projetam sob a luz 

oblíqua dos postes da Light 

a sombra da clandestinidade. 

No outro dia, a cidade 

acorda com a insurreição, 

que se sublevou na madrugada 

contra o regime tirano. 

Os soldados à paisana, 

com baldes de tinta,
tingem, 

tingem, 

tingem
a mesma frase escrita 

por toda a via pública. 

O general hidrófobo 

manda vir o professor 

de impressões deixadas 

para dizer de que mão 

saiu aquela blasfêmia 

contra a Revolução 

de 1º de abril:
— São centenas de gentes. 

  São milhares de mãos. 

  Impossível distinguir,
  impossível descobrir
  a conspiração deixada…  

Como uma combinação, 

cada qual repete
a mesma indignação,
o mesmo verso,
a mesma frase,
que um exército de lacaios 

sai logo apagando, 

apagando, 

apagando, 

apagando
a voz dos rebelados, 

impregnada em tudo,

como uma desobediência 

que se alastra pelo País:

— Abaixo a Ditadura!

— Abaixo a Ditadura!

— Abaixo a Ditadura!
As mãos escrevem em protesto

como um grito de Liberdade… 

 


                     Rio de Janeiro, 19.3.74 

 

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