AS BOCAS MUDAS
As bocas estão mudas nos bares;
ninguém comenta o que vê,
ninguém diz o que sente,
ninguém exprime onde dói.
São bocas que a eternidade
fechou com uma chave
de segredo
e mistério,
para que nunca falem
do real acontecido.
As bocas estão mudas nas ruas;
ninguém comenta o que se passa,
ninguém diz uma palavra,
ninguém exprime um sentimento.
São bocas que a infâmia
lacrou com uma mordaça
de arbítrio
e horror,
para que nunca mais se lembrem
deste tempo de suplício.
As bocas estão mudas nas casas;
ninguém comenta a angústia,
ninguém diz da aflição,
ninguém exprime o desejo.
São bocas que a opressão
impôs o pecado
do pavor
e da castidade,
para que os casais
nunca mais se beijem.
As bocas estão mudas nas fábricas;
ninguém comenta o salário,
ninguém diz do sentimento.
ninguém exprime o que sente.
São bocas que o Capital
condicionou ao Trabalho
escravo
e impiedoso,
sobre todos os corpos
face à sede do enriquecimento.
As bocas estão mudas nos jornais;
ninguém comenta a notícia,
ninguém diz a verdade,
ninguém exprime a opinião.
São bocas que a censura
lacrou com a chancela
do medo
e da obediência,
para que nunca mais expressem
a função da Liberdade.
As bocas estão mudas nos guetos;
ninguém comenta a desgraça,
ninguém diz da fome,
ninguém exprime a dor.
São bocas que a inanição
apoderou-se dos lábios
carcomidos
e trêmulos,
para que nunca mais alimentem
as carnes putrefatas.
As bocas estão mudas nas praças;
ninguém comenta a inquietação,
ninguém diz dos anseios,
ninguém exprime a primavera.
São bocas que a tirania
impôs o silêncio
mordaz
e corrosivo,
para que nunca mais admirem
a estação das flores.
As bocas estão mudas nas escolas;
ninguém comenta a lição,
ninguém diz se aprendeu,
ninguém exprime as dúvidas.
São bocas que o sistema
apoderou-se das palavras
proibidas
e impublicáveis,
para o cerceamento do saber
e o aniquilamento do amanhã.
As bocas estão mudas nos livros;
ninguém comenta em versos,
ninguém diz em prosa,
ninguém exprime em sentimentos.
São bocas que a omissão
acenou com as benesses
da glória
e da imortalidade
aos que lavam as mãos
frente este tempo de hoje.
As bocas estão mudas frente o espelho
do horror
e da ignomínia,
a todos os que se rebelam.
As bocas estão mudas no mundo…
Rio de Janeiro, 18.4.74