As bocas mudas

Maciel de Aguiar

AS BOCAS MUDAS

 

 

As bocas estão mudas nos bares; 

ninguém comenta o que vê,
ninguém diz o que sente,
ninguém exprime onde dói.
São bocas que a eternidade
fechou com uma chave
de segredo
e mistério,
para que nunca falem
do real acontecido.
As bocas estão mudas nas ruas; 

ninguém comenta o que se passa, 

ninguém diz uma palavra,
ninguém exprime um sentimento. 

São bocas que a infâmia
lacrou com uma mordaça
de arbítrio
e horror,
para que nunca mais se lembrem

deste tempo de suplício.
As bocas estão mudas nas casas; 

ninguém comenta a angústia,
ninguém diz da aflição,
ninguém exprime o desejo.
São bocas que a opressão
impôs o pecado
do pavor
e da castidade,
para que os casais
nunca mais se beijem.
As bocas estão mudas nas fábricas; 

ninguém comenta o salário,
ninguém diz do sentimento.

ninguém exprime o que sente. 

São bocas que o Capital
condicionou ao Trabalho
escravo 

e impiedoso,
sobre todos os corpos 

face à sede do enriquecimento. 

As bocas estão mudas nos jornais; 

ninguém comenta a notícia,

ninguém diz a verdade,

ninguém exprime a opinião. 

São bocas que a censura
lacrou com a chancela
do medo
e da obediência,
para que nunca mais expressem 

a função da Liberdade.
As bocas estão mudas nos guetos;  

ninguém comenta a desgraça, 

ninguém diz da fome,
ninguém exprime a dor.
São bocas que a inanição 

apoderou-se dos lábios 

carcomidos
e trêmulos,
para que nunca mais alimentem 

as carnes putrefatas.
As bocas estão mudas nas praças; 

ninguém comenta a inquietação, 

ninguém diz dos anseios,

ninguém exprime a primavera. 

São bocas que a tirania
impôs o silêncio 

mordaz
e corrosivo,
para que nunca mais admirem 

a estação das flores.
As bocas estão mudas nas escolas; 

ninguém comenta a lição,
ninguém diz se aprendeu,
ninguém exprime as dúvidas.
São bocas que o sistema
apoderou-se das palavras 

proibidas 

e impublicáveis,
para o cerceamento do saber 

e o aniquilamento do amanhã. 

As bocas estão mudas nos livros; 

ninguém comenta em versos, 

ninguém diz em prosa,
ninguém exprime em sentimentos. 

São bocas que a omissão 

acenou com as benesses 

da glória
e da imortalidade
aos que lavam as mãos
frente este tempo de hoje.
As bocas estão mudas frente o espelho
do horror
e da ignomínia,
a todos os que se rebelam.
As bocas estão mudas no mundo… 

 


                     Rio de Janeiro, 18.4.74

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