Alucinações

Maciel de Aguiar

ALUCINAÇÕES

 

 

Ao contrário da noite,

o dia acorda os vivos

empurrando-os ao suplício;

pobres diabos que arrastam

pelas ruas as mazelas

em carne viva

e pés descalços

de corpos nus procurando

o alimento deixado

nas latas de lixo.

Ao contrário da primavera,

o medo mostra a estação do medo,

fantasmas escondem-se sob as árvores,

mendigos lavam o corpo

no mesmo tanque de mijo,

prostitutas são esquartejadas

depois do prazer

sob os Arcos,

assaltantes levam a bolsa

deixando a vida por um fio

flácido,

ínfimo,

tênue,

estendido...

Cães hidrófobos mostram

as presas assassinas

que brilham à luz opaca

deste nosso tempo de hoje.

Eles procuram pelos meninos...

Eles procuram pelos facínoras...

Eles procuram pelos venturosos...

Pobres infantes que lutam

nas trevas com as armas

enfrentando a ira do regime.

Duendes atiram pedras

para que a noite nunca termine,

em fragmentos ao vento

como pedaços de vidas

estilhaçadas pelas calçadas.

Quantos sofrimentos,

quantos nomes,

quantos mortos

terão direito à sepultura?

Os jornais contam a versão

dos vencedores em gargalhadas

nas páginas permitidas;

os tipógrafos passam a noite

em claro obedecendo

às ordens do censor

que enfia o dedo no fato,

enquanto os que conheceram

os tempos de Liberdade

corroem a garganta com o gosto

amargo das lembranças dos anos.

Ao contrário da claridade,

as trevas invadem os olhos

dos condenados que tateiam

os caminhos sem volta,

itinerário em via pública,

desfiladeiro sem fim

ao caldeirão de chumbo

onde mergulham os corpos

afogados na esperança,

enquanto os demônios lustram

os cornos de estanho

para traspassar as almas

de todos os que se atrevem.

Ao contrário dos direitos humanos,

há os que sobrevivem com uma chamazinha

pelos esconsos das prisões,

enfrentando os métodos da tortura,

que se apoderam dos corpos,

arrancando-lhes confissões

pelos crimes não cometidos.

Os gritos infames de dor

são arrancados com os dedos

dos que perderam as unhas

e escrevem nas paredes

as cartas de despedida,

em letras de sangue seco

que vão se perpetuar no tempo,

quando as sevícias cruéis

enchem as celas fétidas

de baques surdos nos ares,

deixando no peito dos condenados

as tatuagens ao amanhã.

Ao contrário da Liberdade

que insiste diante da dor,

a repressão passeia

sobre os ombros com os tanques;

soldados marcham sobre os crânios

dos mortos sem sepultura;

generais coléricos ditam

a nova Ordem do Dia,

enquanto nos trancamos no quarto

de pensão fétida da Lapa,

ouvindo notícia no rádio,

lemos manchetes dos jornais

pelo buraco da fechadura

e escrevemos poemas

aos que vivem na clandestinidade.

Ao contrário da morte

em seu metro de altura,

que passeia pelos corredores

arrastando pesadas correntes

para serem atadas aos pés,

a vida faz ressuscitar

os que foram assassinados.

São corpos cambaleantes

que saem das covas dos indigentes

procurando os rumos perdidos.

São esqueletos desengonçados

em passeatas denunciando

em alguma parte do mundo.

Enquanto as mulheres loucas

chamam pelos maridos

com uma fotografia nas mãos,

corpos correm pelas praças

em estado de putrefação,

indagando pelo atestado.

Ao contrário do que nos ensinam

nas escolas os livros,

os noticiários da TV,

os jornais sob censura,

as propagandas permitidas,

os poetas distantes,

os artistas omissos

e os professores de mãos limpas,

a alucinação invade

a cabeça dos procurados

fazendo-os acreditar

que ainda estão vivos.

Ao contrário do dia,

a noite acorda os mortos...

 

 

                       Rio de Janeiro, 29.4.73

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados