ALUCINAÇÕES
Ao contrário da noite,
o dia acorda os vivos
empurrando-os ao suplício;
pobres diabos que arrastam
pelas ruas as mazelas
em carne viva
e pés descalços
de corpos nus procurando
o alimento deixado
nas latas de lixo.
Ao contrário da primavera,
o medo mostra a estação do medo,
fantasmas escondem-se sob as árvores,
mendigos lavam o corpo
no mesmo tanque de mijo,
prostitutas são esquartejadas
depois do prazer
sob os Arcos,
assaltantes levam a bolsa
deixando a vida por um fio
flácido,
ínfimo,
tênue,
estendido...
Cães hidrófobos mostram
as presas assassinas
que brilham à luz opaca
deste nosso tempo de hoje.
— Eles procuram pelos meninos...
— Eles procuram pelos facínoras...
— Eles procuram pelos venturosos...
Pobres infantes que lutam
nas trevas com as armas
enfrentando a ira do regime.
Duendes atiram pedras
para que a noite nunca termine,
em fragmentos ao vento
como pedaços de vidas
estilhaçadas pelas calçadas.
Quantos sofrimentos,
quantos nomes,
quantos mortos
terão direito à sepultura?
Os jornais contam a versão
dos vencedores em gargalhadas
nas páginas permitidas;
os tipógrafos passam a noite
em claro obedecendo
às ordens do censor
que enfia o dedo no fato,
enquanto os que conheceram
os tempos de Liberdade
corroem a garganta com o gosto
amargo das lembranças dos anos.
Ao contrário da claridade,
as trevas invadem os olhos
dos condenados que tateiam
os caminhos sem volta,
itinerário em via pública,
desfiladeiro sem fim
ao caldeirão de chumbo
onde mergulham os corpos
afogados na esperança,
enquanto os demônios lustram
os cornos de estanho
para traspassar as almas
de todos os que se atrevem.
Ao contrário dos direitos humanos,
há os que sobrevivem com uma chamazinha
pelos esconsos das prisões,
enfrentando os métodos da tortura,
que se apoderam dos corpos,
arrancando-lhes confissões
pelos crimes não cometidos.
Os gritos infames de dor
são arrancados com os dedos
dos que perderam as unhas
e escrevem nas paredes
as cartas de despedida,
em letras de sangue seco
que vão se perpetuar no tempo,
quando as sevícias cruéis
enchem as celas fétidas
de baques surdos nos ares,
deixando no peito dos condenados
as tatuagens ao amanhã.
Ao contrário da Liberdade
que insiste diante da dor,
a repressão passeia
sobre os ombros com os tanques;
soldados marcham sobre os crânios
dos mortos sem sepultura;
generais coléricos ditam
a nova Ordem do Dia,
enquanto nos trancamos no quarto
de pensão fétida da Lapa,
ouvindo notícia no rádio,
lemos manchetes dos jornais
pelo buraco da fechadura
e escrevemos poemas
aos que vivem na clandestinidade.
Ao contrário da morte
em seu metro de altura,
que passeia pelos corredores
arrastando pesadas correntes
para serem atadas aos pés,
a vida faz ressuscitar
os que foram assassinados.
São corpos cambaleantes
que saem das covas dos indigentes
procurando os rumos perdidos.
São esqueletos desengonçados
em passeatas denunciando
em alguma parte do mundo.
Enquanto as mulheres loucas
chamam pelos maridos
com uma fotografia nas mãos,
corpos correm pelas praças
em estado de putrefação,
indagando pelo atestado.
Ao contrário do que nos ensinam
nas escolas os livros,
os noticiários da TV,
os jornais sob censura,
as propagandas permitidas,
os poetas distantes,
os artistas omissos
e os professores de mãos limpas,
a alucinação invade
a cabeça dos procurados
fazendo-os acreditar
que ainda estão vivos.
Ao contrário do dia,
a noite acorda os mortos...
Rio de Janeiro, 29.4.73