A MULHER ENLOUQUECIDA
Aos gritos,
aos prantos,
aos gemidos
de dor e alucinação,
aquela mulher em luto
esfrega-se pelas calçadas
em escoriações generalizadas
pelo corpo em carne viva,
fazendo correr os transeuntes
assustados com aquela vida
em pedaços se entregando
aos infernos deste tempo.
Os que param se indagam
com um misto de desprezo
e indulgência nos olhos:
— Pobre mulher
o que lhe terá acontecido?
Ninguém sabe de onde vem,
ninguém sabe o seu nome,
ninguém entende suas súplicas,
ninguém lhe oferece compaixão.
A mulher com as mãos
sobre o sexo em carne viva
grita aos deuses da sarjeta
palavras indecifráveis,
sofrimento sem fim,
provação
e agonia.
Vez por outra alguém clama pela Justiça,
que nada pode fazer:
— Já fizera antes.
Alguém pede ao Exército,
que nada pode fazer:
— Já fizera antes.
Alguém chama a Polícia Federal,
que nada pode fazer:
— Já fizera antes.
Alguém a leva ao promotor,
que nada mais pode fazer:
— Já fizera antes.
A mulher recebe nova roupa
de algodão rude e branco
para resistir à provação,
de continuar arrastando-se
com as mãos sobre o sexo.
Os gritos são cada vez piores,
denunciando a tragédia,
tão conhecida de todos,
mas ninguém se atreve
a elucidar a causa.
Aquele corpo de sofrimento,
e de angústia a outra metade,
padece aos olhos que passam
despercebidos da dor
que aniquila uma vida.
— Que Cristo tenha piedade
de sua amargura sem fim...,
dizem outras mulheres
que passam sem saber
se poderiam suportar
tal provação na carne.
As mãos trêmulas-ensangüentadas,
os gritos,
as dores
a contagiar a todos.
Aquela mulher em farrapos
não mais se permite
à tortura submetida:
aranhas,
ratos
e baratas
que lhe eram introduzidos,
numa brutal violência
para arrancar confissões
pelos crimes de amar a Pátria.
Aquela mulher aos prantos
implora que não mais a violentem,
que retirem de suas partes
as aranhas que tecem teias
nas paredes dos grandes lábios,
os dentes que lhe corroem,
enquanto as provações passeiam
dentro da carne trêmula.
Aquela mulher em prantos
implora a todos
que cessem o sofrimento,
que acabem o tormento,
que afugentem os pesadelos.
Aquela mulher enlouquecida,
com as mãos sobre o sexo em brasa,
deitada rente à calçada,
aos olhos dos transeuntes,
implora por compaixão.
— Que Cristo tenha piedade
de sua alma de dor...
Pelas frestas das janelas,
os óculos escuros da infâmia
assistem em êxtase a maldade
imposta pelas mãos
hediondas-impiedosas
contra os corpos esvaídos:
— Miseráveis sanguinários,
criaturas do demo,
retirem as mãos sujas
dos corpos em desespero...
Aquela mulher aos gritos
diante de nosso tempo
encontra-se com os seus fantasmas.
Rio de Janeiro, 19.8.73