A mulher enlouquecida

Maciel de Aguiar

A MULHER ENLOUQUECIDA

 

 

Aos gritos,

aos prantos,

aos gemidos

de dor e alucinação,

aquela mulher em luto

esfrega-se pelas calçadas

em escoriações generalizadas

pelo corpo em carne viva,

fazendo correr os transeuntes

assustados com aquela vida

em pedaços se entregando

aos infernos deste tempo.

Os que param se indagam

com um misto de desprezo

e indulgência nos olhos:

Pobre mulher

  o que lhe terá acontecido?

Ninguém sabe de onde vem,

ninguém sabe o seu nome,

ninguém entende suas súplicas,

ninguém lhe oferece compaixão.

A mulher com as mãos

sobre o sexo em carne viva

grita aos deuses da sarjeta

palavras indecifráveis,

sofrimento sem fim,

provação

e agonia.

Vez por outra alguém clama pela Justiça,

que nada pode fazer:

Já fizera antes.

Alguém pede ao Exército,

que nada pode fazer:

Já fizera antes.

Alguém chama a Polícia Federal,

que nada pode fazer:

Já fizera antes.

Alguém a leva ao promotor,

que nada mais pode fazer:

Já fizera antes.

A mulher recebe nova roupa

de algodão rude e branco

para resistir à provação,

de continuar arrastando-se

com as mãos sobre o sexo.

Os gritos são cada vez piores,

denunciando a tragédia,

tão conhecida de todos,

mas ninguém se atreve

a elucidar a causa.

Aquele corpo de sofrimento,

e de angústia a outra metade,

padece aos olhos que passam

despercebidos da dor

que aniquila uma vida.

Que Cristo tenha piedade

  de sua amargura sem fim...,

dizem outras mulheres

que passam sem saber

se poderiam suportar

tal provação na carne.

As mãos trêmulas-ensangüentadas,

os gritos,

as dores

a contagiar a todos.

Aquela mulher em farrapos

não mais se permite

à tortura submetida:

aranhas,

ratos

e baratas

que lhe eram introduzidos,

numa brutal violência

para arrancar confissões

pelos crimes de amar a Pátria.

Aquela mulher aos prantos

implora que não mais a violentem,

que retirem de suas partes

as aranhas que tecem teias

nas paredes dos grandes lábios,

os dentes que lhe corroem,

enquanto as provações passeiam

dentro da carne trêmula.

Aquela mulher em prantos

implora a todos

que cessem o sofrimento,

que acabem o tormento,

que afugentem os pesadelos.

Aquela mulher enlouquecida,

com as mãos sobre o sexo em brasa,

deitada rente à calçada,

aos olhos dos transeuntes,

implora por compaixão.

Que Cristo tenha piedade

  de sua alma de dor...

Pelas frestas das janelas,

os óculos escuros da infâmia

assistem em êxtase a maldade

imposta pelas mãos

hediondas-impiedosas

contra os corpos esvaídos:

Miseráveis sanguinários,

  criaturas do demo,

  retirem as mãos sujas

  dos corpos em desespero...

Aquela mulher aos gritos

diante de nosso tempo

encontra-se com os seus fantasmas.

 

 

                      Rio de Janeiro, 19.8.73

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