31 DE MARÇO DE 1992
O velho anota
no metrô
seu poema
velho
da vitória
do que houve
de mais velho
quando era
demais jovem.
Ninguém
além do velho
se interessa
por seu poema
Antiquado
Sem rima
e sem metro.
O velho do metrô
usa óculos e bigodes
e nos pés
um par de tênis
Surrados
Sem laço
e sem cadarço.
Com a memória em 64
os pés em 22
a cabeça em 68
e o coração sem tempo
o velho anota
seu poema
Datado.
Mulheres de todas as idades
entram e saem do metrô
do mesmo modo como o fizeram
na vida do velho
Pernas verdes amarelas azuis e brancas
Pernas vermelhas
— Para que tanta perna, meu deus?! —
considera o velho.
Mas as pernas passam
as mulheres passam
os amores passam
a vida passa.
Tudo na vida passa.
E envelhece.
Rejuvenescido pela poesia que passa
o velho sorri um sorriso ateu
ciente de que o metrô
não é o Trem d'A História
e de que deus não existe.
Assim, desembarca no Paraíso.
O velho sorri solitário
e despojado de expectativas
No metrô
Na gare
Na vida.
O velho deixa a estação
mergulha na chuva fina da noite
declina qualquer autoenternecimento ou comiseração pública
faz xixi na árvore da esquina
e prossegue em direção ao vazio
assobiando uma velha melodia
Por que não?