I
Ceguem a águia no seu grito agoniado
pois que ereta o estandarte americano ufana
em uma liberdade choramingada e esganiçada
pretensa, que entalhou o olhar resignado
de Lincoln em Black Hills
II
estrangulem a águia em seu voo mais ousado
por servir de símbolo a um continente fraticida
que subleve seus filhos em holocausto
transformando-os em estranhos momos exemplares
em nome às cracias multinacionais
III
esqueçam o embrião da "skyline" a águia alerta
que conduz e tolhe o nosso planar mais alto
e preocupem-se com os ratos do centro e do sul
porque desses o choro não é um canto
ideológico de guetos ou bandeiras raciais,
é o gemido calado da fome latente
do grito engasgado barrado por patentes
na cadência estúpida da conveniência
em regresso taciturno ao útero medieval
IV
e sufoquem o uivo
dessa águia do norte
a erguer-se em pedestais
em cada coração alienado irmão
V
e sufoquem o uivo
dessa águia do norte
a poluir nossos ideais e cordilheiras
a dividir-nos fraternos
em retalhos coloniais
VI
e sufoquem o uivo
dessa águia do norte
antes que se cale por si
e se estrume
e se faça nascer em nós
o escravo americano
VII
ceguem essa águia no seu grito agoniado
por imiscuir-nos à necessidade atômica
como estandarte americano a ser venerado
e ilhar-nos no negrume do minério
pretensos, para entalhar-nos ovelhas caboclas
no barro pisado de seus tratores
VIII
estrangulem essa águia em seu voo mais ousado
para que sinta a angústia do tolhimento
para que sinta a impossibilidade do condenado
para que a insignifique na fração do mergulho
e se anule na violência do suicídio
IX
e lembrem o embrião da "skyline" a águia alerta
que profetiza-nos a liberdade da baioneta
que nos encabresta a jogos governamentais
exorcizando-nos à podridão do "all right".
Comentário do pesquisador
No Nº 1 da Revista Literaçu (Prefeitura Municipal de Blumenau, Secretaria de Educação e Cultura, Departamento de Cultura), Maria Odete O. Olsen, então aluna do 4º ano de Ciências Biológicas da FURB, premiada no primeiro concurso estadual de contos de universitário, abre assim a seção de Poesias: “No atual mundo em que vivemos, esse mundo de pós guerra de capitalismos e ditaduras não acredito que haja lugar para a poesia cor-de-rosa. Das flores e da beleza tudo já foi dito e tocado. Urge mostrar o fedor das tocas, das prisões e das favelas; da fome dos menores abandonados, dos velhos entulhados nos asilos, dos lavradores explorados pelos incentivos da política estranguladora; dos poetas de ocasião que rasgam a palavra por modismos. [...] Acredito que nós, os nanicos, os desconhecidos e que a maioria faz questão da permanência nesse estágio mesmo, somos os ressuscitadores da Literatura Catarinense [...]”.