I
A explicação
se nessas calçadas cariadas
que os pensamentos masturbam a noite
nós bebemos lama
e nesses becos fedidos
que as prefeituras cospem fezes
entre as fezes
nos transformamos em piranhas
Talvez a carniça alguém possa despertar
II
do desespero
morreu o Homem em beira do asfalto
sem vela benção ou oração está encalhado sem vestes
roubado quadro disforme degradante para a visão
perguntem por um coveiro e gritem-lhe que a terra
oxidou-se e brônzea a lima está da pá rotineira
e de ferrugem a transformar-se estão os pés
do filho herdeiro
ou gritem-lhe ainda que as putas atacaram um mineiro
rasgaram-lhe as vestes roeram-lhe o umbigo
beberam-lhe o sangue e tiraram-lhe o dinheiro
mas implorem ao coveiro
morreu o Homem em beira do asfalto
e caído nas pedras desfeito homem
entulho de postas entrave aos homens
estúpido tronco amontoado está
tombado guerreiro.
Comentário do pesquisador
No Nº 1 da Revista Literaçu (Prefeitura Municipal de Blumenau, Secretaria de Educação e Cultura, Departamento de Cultura), Maria Odete O. Olsen, então aluna do 4º ano de Ciências Biológicas da FURB, premiada no primeiro concurso estadual de contos de universitário, abre assim a seção de Poesias: “No atual mundo em que vivemos, esse mundo de pós guerra de capitalismos e ditaduras não acredito que haja lugar para a poesia cor-de-rosa. Das flores e da beleza tudo já foi dito e tocado. Urge mostrar o fedor das tocas, das prisões e das favelas; da fome dos menores abandonados, dos velhos entulhados nos asilos, dos lavradores explorados pelos incentivos da política estranguladora; dos poetas de ocasião que rasgam a palavra por modismos. [...] Acredito que nós, os nanicos, os desconhecidos e que a maioria faz questão da permanência nesse estágio mesmo, somos os ressuscitadores da Literatura Catarinense [...]”.