Canto do ser humano redivivo
PRÓLOGO
Podem destruir cidades
e fabricar homens mecânicos.
Eu, por mim, semearei os campos
e viverei ao ar, livre
tomarei banho no regato
e rirei às gargalhadas
das aves metálicas
que sobrevoarem o meu céu.
O caminho que percorro
é cheio de buracos abertos
como órbitas sem olhos.
Encontro cidades abandonadas
e homens mortos espalhados.
Esqueceram de apertar o botão
da máquina de empilhar mortos
mas podem ficar descansados —
eu, por mim, enterrarei os mortos
com minhas próprias mãos
cavarei a terra com as unhas
e, de sangue, farei nascer rosas vermelhas
para cobrir as sepulturas.
I - O MEDO
asfixiante.
Sinto o pescoço apertado
por garras invisíveis
e pela cidade abandonada
vejo mãos passeando aos pares
em corpos inexistentes.
Contaram uma estória
interessante:
um grande monstro
invadiu a cidade
e devorou os homens que encontrou
Só deixou as mãos
inúteis, vazias...
II - O GRITO
desesperado.
Ouço minha voz
repercutindo ao longe
como um tímpano quebrado.
Ouço minha voz
repetindo o mesmo som
angustiado
Eu não sou eu
sou todos os sons
inaudíveis
que notas falsas
não conseguem vibrar
Eu sou o grito rebelde
que o medo não pode calar,
Liberdade!
meu grito gerado no medo
rompe entranhas doridas
e vem à luz ensanguentado
anunciando a vida.
III - A LUTA
conquistada.
Trago meu peito aberto
que mãos impuras
não profanaram
Em meus olhos
conduzo a chama
inapagável da esperança.
Rompo meu caminho
a sangue
e a pedradas
e de lágrimas não choradas
marco meu rosto
como a ferro em brasa.
Eu não sou eu
sou o caminho que conquisto
IV - A ESPERANÇA
renascida.
Do alto da montanha
vejo mil luzes vermelhas
tremulando no espaço.
São tochas levantadas
acima das cabeças anônimas
de mil homens não identificados.
Eu não sou eu
sou a cidade que construo
EPÍLOGO
Semearei os campos.
Enterrarei cadáveres.
O meu caminho é longo,
minha vida é pouca
Mas eu não sou eu,
sou o homem/mulher
redivivos
anunciando um dia que já veio.
E, pedra sobre pedra
eu te construirei, oh! liberdade
nem que seja tarde
nem que seja morta
dezembro, 1966