As testemunhas

Maciel de Aguiar

 AS TESTEMUNHAS

 

 

As testemunhas não falam,
não ouvem, 

não vêem,
enquanto os juízes, do alto
das togas de lume,
condenam os réus pelos crimes 

da consciência despertada,
a dois mil anos de prisão. 

Na dúvida, pró acusador… 

Na dúvida, pró vencedor… 

Na dúvida, pró autoridade…

O promotor que a tudo vê,
tudo sabe,
tudo compartilha
em favor do regime
que lhe cortou as asas,
dedica-se ao ofício
da defesa dos tiranos
para a execração do condenado:

Meritíssimo, ainda é pouco… 

Meritíssimo, é quase nada… 

Meritíssimo, aumenta a pena,

  meritíssimo filho de uma puta,

  penso… 

Mas as testemunhas, com a boca 

sob a mordaça do medo,
viverão uma eternidade
sem ao menos uma palavra
nas línguas decepadas

para que nunca discordem
do transitado

em julgado…

Que nada mais seja dito… 

Que nada mais seja visto… 

Que nada mais seja falado …

O promotor, com a ira,

ao contrário do que deveria,

não se dá por satisfeito;
acusa a mãe da vítima,
os avós octogenários,
os bisavós no túmulo,
os tetravós na fotografia da sala 

há muito foram tragados… 

São facínoras… 

São raças ruins… 

São subversivos…
As testemunhas com os olhos
sob venda pelas trevas
têm a cabeça balançada
em sinal de concordância
em movimentos verticais,
que as mãos dos algozes
a sacodem pelos cabelos
para frente
e para trás.

Tudo conforme os conformes…

Tudo conforme as instruções…

Tudo conforme as indulgências… 

O promotor lambe o saco
do general colérico,
escova os cascos do regimento,
vira capacho dos palácios
do planalto onde os tiranos
limpam os pés todas as manhãs
quando ditam as mesmas Ordens.

Lacaios…

Lacaios…

Lacaios…
As testemunhas têm os ouvidos
implodidos por telefones
nas mãos em concha desferidos
contra os tímpanos perfurados
por instrumentos pontiagudos,
para que nada mais ouçam
além do chamado dos nomes
à Lista dos Desaparecidos.

João Gualberto Calatroni… 

Vitorino Alves Moitinho
Antônio Carlos Bicalho Lana… 

O promotor dá gargalhadas
em seu ministério lacônico,
também condenado, e não sabe, 

a dois mil anos de servilismo
pelo regime que lhe castrou
a atribuição devida,
deixando-o como um bobo
na condescendência da Corte. 

– Estamos satisfeitos…

– Estamos realizados…

– Estamos bem pagos…
As testemunhas não falam,
não ouvem,
não vêem,
e os juízes prostituídos
dizem do alto do pedestal,
apontando à cabeça
dos condenados pelos crimes:

– Fodam-se todos…

– Fodam-se todos…

– Fodam-se todos…
As testemunhas não sabem,
mas há muito também foram condenadas…

 

 

                   Rio de Janeiro, 6.3.74

 

 

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