AS TESTEMUNHAS
As testemunhas não falam,
não ouvem,
não vêem,
enquanto os juízes, do alto
das togas de lume,
condenam os réus pelos crimes
da consciência despertada,
a dois mil anos de prisão.
– Na dúvida, pró acusador…
– Na dúvida, pró vencedor…
– Na dúvida, pró autoridade…
O promotor que a tudo vê,
tudo sabe,
tudo compartilha
em favor do regime
que lhe cortou as asas,
dedica-se ao ofício
da defesa dos tiranos
para a execração do condenado:
– Meritíssimo, ainda é pouco…
– Meritíssimo, é quase nada…
– Meritíssimo, aumenta a pena,
meritíssimo filho de uma puta,
penso…
Mas as testemunhas, com a boca
sob a mordaça do medo,
viverão uma eternidade
sem ao menos uma palavra
nas línguas decepadas
para que nunca discordem
do transitado
em julgado…
– Que nada mais seja dito…
– Que nada mais seja visto…
– Que nada mais seja falado …
O promotor, com a ira,
ao contrário do que deveria,
não se dá por satisfeito;
acusa a mãe da vítima,
os avós octogenários,
os bisavós no túmulo,
os tetravós na fotografia da sala
há muito foram tragados…
– São facínoras…
– São raças ruins…
– São subversivos…
As testemunhas com os olhos
sob venda pelas trevas
têm a cabeça balançada
em sinal de concordância
em movimentos verticais,
que as mãos dos algozes
a sacodem pelos cabelos
para frente
e para trás.
– Tudo conforme os conformes…
– Tudo conforme as instruções…
– Tudo conforme as indulgências…
O promotor lambe o saco
do general colérico,
escova os cascos do regimento,
vira capacho dos palácios
do planalto onde os tiranos
limpam os pés todas as manhãs
quando ditam as mesmas Ordens.
– Lacaios…
– Lacaios…
– Lacaios…
As testemunhas têm os ouvidos
implodidos por telefones
nas mãos em concha desferidos
contra os tímpanos perfurados
por instrumentos pontiagudos,
para que nada mais ouçam
além do chamado dos nomes
à Lista dos Desaparecidos.
– João Gualberto Calatroni…
– Vitorino Alves Moitinho…
– Antônio Carlos Bicalho Lana…
O promotor dá gargalhadas
em seu ministério lacônico,
também condenado, e não sabe,
a dois mil anos de servilismo
pelo regime que lhe castrou
a atribuição devida,
deixando-o como um bobo
na condescendência da Corte.
– Estamos satisfeitos…
– Estamos realizados…
– Estamos bem pagos…
As testemunhas não falam,
não ouvem,
não vêem,
e os juízes prostituídos
dizem do alto do pedestal,
apontando à cabeça
dos condenados pelos crimes:
– Fodam-se todos…
– Fodam-se todos…
– Fodam-se todos…
As testemunhas não sabem,
mas há muito também foram condenadas…
Rio de Janeiro, 6.3.74