Meus amigos mortos

Maciel de Aguiar

MEUS AMIGOS MORTOS

 

 

Meus amigos estão mortos,

enquanto o regime passeia

à procura dos que pensam que ainda estão vivos;

os que já não se olham no espelho,

não cruzam o meio-fio,

não falam ao telefone,

não escrevem o nome

no remetente das cartas;

não sabem dos parentes,

não conhecem os filhos,

não podem mais ir ao cinema

nem ao campo de futebol;

não entram em livraria

nem sentem a brisa do mar;

nunca mais andaram

sem o medo do obscuro,

nem sentaram-se à mesa.

Meus amigos estão mortos,

enquanto os tiranos celebram

a desgraça dos que acalentam as chagas

e ainda esperam pelos algozes

para perder os dentes,

cheirar fumaça de óleo diesel,

ter as unhas traspassadas,

conversar com os cadáveres,

escrever cartas com o próprio sangue,

cuspir placas de vísceras

e arrastar-se pelos corredores

implorando por uma injeção letal

e mergulhar no desespero

para nunca mais serem os mesmos

nem fecharem as feridas.

Meus amigos estão mortos,

enquanto a música ufanista

contagia os corações

dos que pensam que estão vivos,

os que passeiam despercebidos,

vestem-se de esperança,

acreditam no Milagre,

fazem de conta que nada acontece,

cruzam os braços frente o pedido de socorro,

lavam as mãos diante do grito de dor,

escrevem poemas para as misses,

não lêem as entrelinhas das notícias,

comportam-se como cordeiros,

mantêm a boca muda,

dizem que ninguém segura este país,

e que nunca mais serão os mesmos;

nem por isso deixarão de curvar-se à tirania.

Meus amigos estão mortos,

enquanto as páginas dos jornais

anunciam receitas de bolo

para que todos possam temer

a nova Ordem do Dia;

os que esqueceram as lições

inconfidentes do passado

e ajoelham-se diante dos coturnos,

lambem os anéis dos poderosos,

fecham os olhos diante do regime,

fazem festa aos vencedores,

trazem o medo estampado na face,

vivem em posição genuflexa,

estão prontos à submissão,

recusam-se a reverenciar os mortos,

nunca afirmam que conhecem os culpados,

desdenham dos que traçam os seus rumos,

nunca acreditarão em si mesmos,

nem por isso apóiam os que resistem.

Meus amigos estão mortos,

enquanto os demônios passeiam as correntes

assustando os que se escondem;

os que fogem dos assassinos,

acham que não sobreviverão

por mais de dois ou três anos;

trazem nas faces as marcas,

buscam no suicídio a fuga,

fecham-se dentro do peito,

empurram-se ao abismo,

estão prontos à tragédia,

não resistem a um olhar displicente,

consideram-se destruídos,

já não acreditam nas pessoas,

marcaram encontro com a desgraça,

e nunca mais se lembrarão

de que existiram um dia;

nem por isso deixam de escrever

a história da própria dor.

Meus amigos estão mortos,

enquanto os tanques passeiam

com a força blindada pelas ruas

sobre os que pensam que estão vivos;

os que perderam os testículos,

que padecem no pau-de-arara,

sofrem sevícias aos olhos dos companheiros,

cavam a própria sepultura,

tiveram arrancadas as unhas,

trazem o crânio afundado,

são condenados sem julgamento,

viajam no comboio da morte,

são desaparecidos sem deixar vestígios,

infelizes, procuram pelo Atestado,

e nunca mais se sentirão seres humanos;

mas nem por isso no amanhã

estarão livres dos fantasmas.

Meus amigos estão mortos,

impotente,

diante deste tempo perverso,

escrevo poemas sem saber

se um dia serão lidos.

Meus amigos estão mortos,

poeta,

diante da impossibilidade da vida

escrevo a todos e ninguém.

 

 

                      Rio de Janeiro, 6.4.73

 

 

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