Corpos em delito

Maciel de Aguiar

CORPOS EM DELITO

 

 

Os condenados perfilam-se

com os corpos mutilados

diante da ira do algoz,

ao exame das chagas

que trazem abertas ao vento.

Juntam-se queimaduras

por todas as partes do corpo,

equimoses que se espalham

pelo abdome dilacerado,

unhas arrancadas,

escoriações em sangue,

cicatrizes irregulares

deixando tatuagens

na região glútea,

pupilas perfuradas

por instrumentos pontiagudos,

órgãos genitais deformados

com violência

e sadismo,

bolsas escrotais povoadas

de lesões

e edemas,

fissuras diversas

na parede do ânus,

crânios afundados

por torniquetes de espinhos,

tíbias tortas à mostra

como a brancura do leite,

dedos pisoteados

por coturnos ao chão,

marcas de caninos

nas costas,

nos ombros,

nas pernas,

amontoam-se no Instituto

Ilegal para mais humilhação.

Os condenados, com seus espectros,

entram em fila pelos corredores

ao exame de delito.

Cada um com uma sina,

cada um com uma história,

cada um com uma desgraça

perguntando-se nos ouvidos:

O que mais podem nos fazer?

Que provação é esta provação?

Que sofrimento é este sofrimento?

Que desgraça é esta desgraça?

Ali jazem sem resposta

aqueles de quem a desonra

apoderou-se da vida.

São cidadãos da Pátria,

são filhos da Nação,

meninos que nem ao menos

viveram os primeiros sonhos.

Os corpos nus exibem

as costelas fraturadas,

hematomas variados,

perônios destroçados,

ligamentos rompidos,

pernas gangrenadas,

arcadas esmagadas,

almas de peneira,

para a satisfação do regime.

Os que acreditam que ainda vivem

arrastam-se pelos corredores

urinando sangue pisado,

com lesões na coluna,

vomitando as entranhas

e tateando o chão

como animais que rastejam.

Vejam o que fizeram,

  assassinos,

  assassinos,

  assassinos!...

Os condenados sem culpa

trazem os corpos de chagas

para a certificação de que ainda

podem resistir às atrocidades.

São mulheres alucinadas

que mostram o bico dos seios

deformado por alicates,

gritam,

gritam,

gritam,

loucas pelos corredores,

que lhes enfiaram baratas,

lhes corroem as entranhas,

enquanto uns velhos cancerosos

cospem pelos cantos,

cospem pelos anos,

cospem pelos ares,

placas de catarro

diante dos que passam

e pedem aos céus de chumbo

murmurando infortúnio:

Somos corpos em delito!

Somos corpos em delito!

Somos corpos em delito! 

Quando os condenados perfilam-se

diante dos assassinos,

poetas escrevem canções

que nunca serão cantadas:

poetas marginais,

canções proscritas,

testemunhos de dor,

sem remetente,

sem resposta,

sem destino,

aos que escondem-se na clandestinidade.

Quando os corpos em delito

aguardam o Atestado de Óbito

uns poetas choram,

choram,

choram,

choram 

as dores que não são suas.

 

 

                      Rio de Janeiro, 28.3.73

 

 

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